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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Resenha - Rorty e as esquerdas*


Ivan Domingues**

Acaba de sair no Brasil a tradução do livro de Rorty "Achieving Our Country" ("Para Realizar a América"), 11 anos depois de sua publicação nos EUA.

Originariamente um conjunto de três conferências, de leitura agradável, a obra contém uma "Apresentação", que cumpre o papel de introduzir o leitor no pensamento do autor, especialmente ao tratar da concepção pragmatista da verdade, à luz da obra de Rorty e de outros nomes ilustres. A lamentar apenas a falta de indicações mais precisas acerca do tema do livro, deixando o leitor desarmado frente ao que vem a ser a concepção pragmatista da política, e mais ainda diante da idéia de uma esquerda pragmatista, tão cara ao autor.

Os três capítulos que integram o livro recobrem assuntos diversos, envolvendo as análises do legado de Dewey e Whitman para o pensamento de esquerda, o exame da própria posição política de Rorty e ainda seus embates contra os comunistas e uma certa esquerda acadêmica. A idéia-força é que a esquerda americana, refugiada na academia, rompeu a aliança com os sindicatos e, desde então, começou a se afundar, não tendo hoje nenhum projeto para o país.

Depois de percorrer os três capítulos, o leitor brasileiro bem poderá se sentir desconcertado, ao descobrir que a esquerda nos EUA não é a mesma que ele encontra em outras paragens -no Brasil, na América Latina e na Europa. Se Roosevelt pode ser considerado de esquerda, com Johnson e Kennedy; se no vocabulário da esquerda de Rorty coabitam a esquerda reformista, a esquerda radical e a nova esquerda -então ou os vocábulos "esquerda" e "direita" não querem dizer mais nada, ou, no Brasil, Getúlio e Juscelino podem ser considerados homens de esquerda ...

Que o leitor não desconfie, porém, do discernimento ou da sinceridade de Rorty, ele que reconhecidamente é um terceiro-mundista e está sinceramente preocupado com o destino dos esquecidos em seu país e em outros cantos do planeta. Todavia que o leitor não espere desse livro a obra de um grande pensador preocupado em repensar a política e a esquerda, ao propor uma filosofia política pragmatista e de esquerda. Livro bem pensado é com certeza "A Filosofia e o Espelho da Natureza", que se ocupa de outro assunto e que, a meu ver, é a melhor coisa que Rorty escreveu. Já "Para Realizar a América" é um livro de circunstância, com menos vigor intelectual, mas ainda assim inteligente e com o qual temos algo a aprender.

Para bem avaliar o livro, eu proponho que analisemos antes o significado histórico dos vocábulos "esquerda" e "direita", para no fim indagarmos a respeito do possível uso desses vocábulos no contexto do pragmatismo.

Para Realizar a América - O Pensamento de Esquerda no Século 20 na América
Richard Rorty
Tradução e apresentação: Paulo Ghiraldelli Jr. DP&A
(Tel. 0/xx/21/507-2633)
160 págs., R$ 16,00

Sabe-se que os termos "esquerda" e "direita" foram forjados depois da Revolução Francesa para designar os lugares ocupados (fisicamente) pelos membros das diversas facções na Assembléia: no período da Convenção, o vocábulo esquerda referindo-se aos "Montagnards" (também chamados de Jacobinos), centro à "Plaine" (Planície) e direita aos Girondinos. Sabe-se que pouco depois, na própria França, houve um embaralhamento entre a esquerda e a direita, como bem viu Marx no "18 Brumário" ao aludir à revolução de 1848 e suas contradições: constitucionalistas que conspiram contra a Constituição, revolucionários que viram constitucionalistas, realistas que se aliam aos republicanos e assim por diante. Passados 150 anos, depois que a esquerda comunista abandonou a veleidade de monopolizar o ideário da esquerda, tal embaralhamento só se aprofundou, a ponto de os franceses dizerem hoje que, quando querem um governo de direita, votam na esquerda, fazendo o contrário quando querem um governo de esquerda.

Diante de tal embaralhamento (real) e ante a perplexidade das esquerdas (total), nada mais fácil para um pragmatista (que tudo mitiga) do que mitigar esquerda e direita e propor um centro mitigado, pensado como o verdadeiro "tópos" da política, mais além ou mais aquém da direita e da esquerda.

O mérito do livro de Rorty foi ter evitado esse caminho óbvio. Preferiu manter o divisor de águas entre a esquerda e a direita, ficando de um dos lados da linha divisória. Se ele mitiga alguma coisa, é a própria esquerda americana, ao juntar a esquerda reformista, a esquerda radical e a nova esquerda. Outro mérito, ao manter os pólos esquerda/ direita, é sua tentativa (ainda que sem levá-la às últimas consequências) de pensar os embates da política a partir do que se poderia chamar de agonismo político, tentativa que o leva em defesa da democracia, como sendo aquela forma de organização política que melhor se presta à expressão e operação dos conflitos permanentes das comunidades dos homens, incluído o conflito entre a esquerda e a direita.

Todavia, como não registrar o desconforto de ver o autor (em nome da democracia) partir em defesa da Guerra Fria, sem levar em conta os estragos terríveis que ela acarretou por toda a parte -no Vietnã, na América Latina e em outras paragens? Recentemente, depois do colapso da União Soviética, em artigo publicado no Mais!, pudemos ler de novo Rorty defendendo a democracia, ao apoiar a invasão de Kosovo pelas tropas americanas e seus aliados da Europa.

Espera-se que no Brasil, depois do fim do pensamento único, um dia alguém faça um trabalho parecido, ainda que entre nós a esquerda não seja a mesma.

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* DOMINGUES, Ivan. Rorty e as esquerdas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 jan. 2000. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs0801200007.htm>. Acesso em: 02 fev. 2015.

** Ivan Domingues é professor do Departamento de Filosofia da UFMG.

Entrevista - A filosofia sem salvação*



Bernardo Carvalho

O americano Richard Rorty, 63, é um dos maiores expoentes da chamada "filosofia neopragmática" ou "pós-analítica".

Algumas de suas principais teses foram expostas no polêmico "A Filosofia e o Espelho da Natureza" (1979), onde atacava a idéia da mente como um espelho refletindo o mundo e as pretensões do pensamento metafísico a dar legitimidade ao conhecimento.

Rorty não acredita numa correspondência direta entre o pensamento e o mundo –considera-se "antidualista, antiplatônico e antifundacionista" (é contra a idéia de que a filosofia paira acima da história e das práticas sociais e tem a função de fundar o conhecimento).

É absolutamente contra todas as teses essencialistas ou universalistas ("Não podemos procurar a salvação fora das práticas sociais", diz). Para ele, a filosofia (e por conseguinte a linguagem) deve ser, antes de mais nada, relativizada, colocada em contexto.

Professor da Universidade de Virginia (EUA), Rorty vem ao Brasil para uma conferência no dia 19, no Rio de Janeiro, dentro do projeto Banco Nacional de Idéias, cujo tema central é "O Relativismo Enquanto Visão de Mundo".

"Vou falar sobre as discussões entre os filósofos como eu, chamados de relativistas, e nossos críticos. Acho que relativismo é um termo errado para definir a minha filosofia, a de Derrida e a do pragmatismo americano de John Dewey, por exemplo. Não devemos nos descrever como relativistas, porque esse termo aceita premissas platônicas, que devemos rejeitar", diz o filósofo, que deverá debater com Luís Eduardo Soares e José Arthur Giannotti.

De seus livros mais significativos, apenas dois foram traduzidos para o português, em Portugal: "Filosofia e o Espelho da Natureza" e "Contingência, Ironia e Solidariedade".

Folha - Em "Filosofia e o Espelho da Natureza", o sr. vai contra a epistemologia e a metafísica. Que tipo de filosofia ainda é possível hoje?

Richard Rorty - A filosofia não deveria ser vista como uma disciplina científica, com uma função social a servir. Os filósofos são pessoas que tentam juntar novos desenvolvimentos culturais com regras familiares aceitáveis. Tentam reconciliar ética cristã com ciência newtoniana, por exemplo, ou iluminismo e racionalismo com uma perspectiva darwiniana da origem humana. Sua função é encontrar maneiras de reempacotar nossas crenças, de forma a que as novas crenças possam coexistir com as velhas.

Folha - No mesmo livro, o sr. diz que os filósofos que mais admira vêm de uma "tradição terapêutica". O sr. poderia explicar o que quer dizer com "uma filosofia terapêutica"?

Rorty - O termo terapia filosófica está associado, em inglês, a Wittgenstein, que era especialista em dizer que muitos dos problemas tradicionalmente discutidos em livros de filosofia simplesmente não precisam ser discutidos. São resultado de uma obsessão neurótica em relação a certos conceitos dispensáveis. Filosofia terapêutica é uma concepção de filosofia onde você tenta se livrar das muletas, da escolástica, das questões cujos temas provocam debates infindáveis e infrutíferos.

Folha - O sr. é um admirador de Heidegger. Qual seria o papel dele dentro dessa "filosofia terapêutica"?

Rorty - O trabalho inicial de Heidegger era uma polêmica contra Descartes e Kant, tentando colocar de lado a idéia que os dois faziam do que é o ser humano e os problemas filosóficos artificiais criados pelas imagens cartesianas e kantianas. Penso em Heidegger como um filósofo que fez, à sua maneira, o mesmo que Wittgenstein e Dewey fizeram.

Folha - Como o sr. explica a recente redescoberta e reavaliação de John Dewey (filósofo do pragmatismo americano, 1859-1952) pela filosofia?

Rorty - Acho que ele foi eclipsado por Marx. Os dois eram discípulos de Hegel e concordavam com o mestre contra Kant. Mas por um longo período, durante o tempo em que o comunismo pareceu ser uma opção possível, as pessoas pensaram que, se quisessem um ponto de vista antikantiano e anti-hegeliano, o lugar para achá-lo era em Marx. Hoje, com a queda do comunismo, Dewey parece melhor, surgindo como uma versão naturalizada e darwinizada de Hegel.

Folha - Há algum futuro para a filosofia num mundo onde verdade e objetividade foram completamente relativizados?

Rorty - Não há uma função para o tipo de filosofia que Descartes sugeriu que devíamos conduzir. Mas acho que sempre haverá a necessidade de intelectuais que tentem fazer a ponte entre o novo e o velho. Sempre haverá pessoas chamadas de filósofos na falta de um termo melhor.

Folha - Mas não haveria o risco de um vasto cinismo das idéias numa cultura em que conceitos como verdade e objetividade foram submetidos a um extensivo relativismo?

Rorty - É certamente uma possibilidade, mas o medo do cinismo também já estava presente nos séculos 17 e 18, quando os intelectuais estavam começando a secularizar a cultura. As pessoas pensavam que, sem as crenças religiosas tradicionais, o cinismo ia tomar conta. Estavam errados. Os intelectuais foram bem-sucedidos em secularizar a cultura sem produzir cinismo. Por analogia, espero que possamos nos livrar da metafísica e, ainda assim, evitar o cinismo.

Folha - O sr. trata de questões prioritárias também para filósofos de uma linha completamente diferente da sua, como os franceses Michel Foucault e Gilles Deleuze. Como o sr. vê a filosofia francesa pós-sartriana?

Rorty - Dos filósofos franceses que apareceram depois de Sartre, acho Derrida o mais importante. Ele tem o pensamento mais original e funciona muito bem dentro da tradição de língua inglesa da filosofia da linguagem contemporânea. Também admiro dois pensadores franceses mais recentes, Bruno Latour e Vincent Descombes, que escreveram contra a própria idéia de pós-moderno, contra os livros de Lyotard.

Folha - Por que o sr. é contra a idéia de pós-moderno?

Rorty - Acho que a noção de pós-moderno não tem qualquer utilidade. É mais uma tentativa artificial de sugerir que recentemente passamos por algo dramático e importante. Não acho que o século 20 faça essa passagem entre o moderno e o pós-moderno. Muito tempo e energia estão sendo gastos na reflexão sobre o tópico do pós-modernismo.

Folha - O sr. aceita o rótulo de filósofo pós-analítico que lhe é atribuído?

Rorty - Não tenho certeza. Creio que continuo sendo um filósofo analítico porque discuto muitos dos tópicos que foram discutidos por filósofos analíticos. Tenho a tendência a ficar nervoso com o termo pós, que me parece excessivamente usado.

Folha - O sr. chegou a dizer que não acreditava mais na possibilidade de uma filosofia analítica hoje...

Rorty - Acho que é um tipo de filosofia perfeitamente correta, não acho que seja impossível. Muito da filosofia analítica se tornou extremamente enfadonho, mas isso é uma outra questão. Há filósofos analíticos contemporâneos como Putnam e Davidson que, embora não sejam originais como Derrida, continuam fazendo importantes contribuições.

Folha - O sr. escreveu sobre o conceito de mente (mind) de uma forma original e inovadora dentro da perspectiva filosófica. O que o sr. pensa do trabalho recente de neurobiólogos como Gerald Edelman? Eles podem mudar alguma coisa nas ciências humanas e na filosofia?

Rorty - Não li muito de Edelman. O que li não me sugere que ele estabeleça qualquer relação com as questões que preocupam os filósofos. Não acredito que entenda bem o que os filósofos vêm discutindo.

Folha - O sr. também escreveu sobre a "filosofia da solidariedade". Poderia explicar qual o sentido do conceito "solidariedade" no seu trabalho?

Rorty - Não significa nada muito técnico. A idéia é que, se você abre mão de Deus, da idéia da verdade como uma representação exata e da natureza intrínseca da realidade, não sobra nada além das práticas sociais humanas em que você possa se ancorar. O termo solidariedade é apenas uma maneira de sugerir que nós, humanos, só podemos contar conosco e não podemos procurar a salvação fora das práticas sociais.

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* CARVALHO, Bernardo. A filosofia sem salvação. Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 mai. 1994. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/5/08/mais!/6.html>. Acesso em: 02 fev. 2015.

A autoridade dos papas*


Richard Rorty

A maioria das grandes organizações possui procedimentos por meio dos quais pode repudiar os atos de um executivo-chefe que tenha tomado decisões autocráticas e desastrosas. A igreja Católica Romana também os possui, em tese -tem um Conselho Geral autorizado a modificar doutrinas ou políticas do governo. Mas nos últimos dois ou três séculos a intimidação papal reduziu os conselhos à impotência. Assim, os católicos que, como Gary Wills, acham que o papado está envergonhando a igreja, não têm a quem recorrer, a não ser aos colegas de congregação. Wills, historiador eminente e um dos mais intelectualmente respeitados membros do laicato católico nos Estados Unidos, escreveu um livro que é um indiciamento devastador e irrestrito dos papas. Na primeira parte de "Papal Sin" (Pecado Papal) -"Desonestidades Históricas"-, ele mostra como a hierarquia eclesiástica tem mentido e se esquivado de maneira constante quanto ao que a igreja fez ou deixou de fazer durante o Holocausto. A segunda parte -"Desonestidades Doutrinais"- argumenta que os papas recentes viraram leninistas: passaram a preocupar-se mais em conservar seu domínio e autoridade do que em atender às necessidades daqueles a quem afirmam servir. Nas duas últimas partes do livro -"A Questão da Honestidade" e "O Esplendor da Verdade"-, Wills escreve sobre seus heróis: lorde Acton, o cardeal Newman e Santo Agostinho, oferecendo-os como exemplos a quem a igreja poderia se voltar para escapar das orwellianas "estruturas de falsidade" hoje embutidas na prática pontifical. 

Crime horrendo

Em 1864, Pio 9º denunciou aqueles que ousavam afirmar que "o pontífice romano pode e deve se reconciliar com e aceitar o progresso, o liberalismo e a civilização moderna". Lorde Acton -como Wills, historiador respeitado e acadêmico perfeitamente capaz de fazer frente aos teólogos do Vaticano no próprio território deles- percebeu que o papa estava conferindo uma imagem ridícula ao catolicismo. Assim, fez tudo que pôde para persuadir o concílio Vaticano Primeiro a não dar a Pio 9º o que ele mais queria: a ratificação da doutrina da infalibilidade papal. Acton perdeu a batalha, mas apenas depois de Pio 9º ter utilizado todos os truques do repertório eclesiástico para obrigar os sacerdotes do concílio a seguir a linha traçada por ele. Wills afirma que Pio 9º é "uma presença no Vaticano até hoje". A falsidade e arrogância papais são ilustradas de maneira mais vívida, para Wills, pelo fato de Paulo 6º ter retirado a questão do controle de natalidade das mãos do concílio Vaticano Segundo. Paulo 6º, diz ele, se apavorou diante da possibilidade de os clérigos do concílio repudiarem os pronunciamentos contrários à contracepção feitos por Pio 11, que, em 1930, anunciara a visão descrita por Monty Python como aquela segundo a qual "todo espermatozóide é sagrado" ("a Divina Majestade", escrevera Pio 11, "vê com o maior repúdio possível esse crime horrendo" -ou seja, o homem derramar suas sementes no chão ou dentro de uma camisinha). Assim, Paulo 6º decidiu que seria melhor dificultar a vida de gerações futuras de católicos do que permitir que o concílio admitisse que um seu antecessor tinha cometido um engano. Wills diz que o "Humanae Vitae", a encíclica lançada por Paulo 6º em 1968 na qual ele reafirma a proibição da contracepção, "não diz respeito ao sexo, na realidade. Diz respeito à autoridade. Paulo 6º decidiu a questão com base exclusivamente nisso". Wills utiliza esse episódio para chegar ao ponto mais importante que quer deixar claro: "Agora pedem que aceitemos que apenas o papa, e mais ninguém, seja autorizado a dizer aos cristãos como eles devem viver... O Espírito Santo agora fala com apenas uma pessoa na Terra, o onicompetente chefe da igreja, igreja essa que é toda cabeça, sem membros. Se fosse assim, o corpo de Cristo teria sido vergonhosamente reduzido". Mas ele tem muitos outros exemplos de desonestidade a dar: interpretações distorcidas das Escrituras, distorções manifestas e não disfarçadas da história eclesiástica, infindáveis queixas hipócritas e mentiras puras e simples. Ele é espantosamente franco sobre questões que a maioria dos escritores católicos evita, como quando escreve: "Na verdade, a admissão de homens e mulheres casados ao sacerdócio -que não poderá deixar de ser aceita algum dia, de qualquer maneira- pode muito bem terminar por ser aceita pelos motivos errados, não porque as mulheres e a comunidade o mereçam, mas em razão do pânico gerado pela percepção de que o sacerdócio está se tornando predominantemente gay". Ele é igualmente franco e sem meias palavras quando se refere ao papa atual, que descreve nos mesmos tipos de termos usados por Acton com referência a Pio 11: "O restante da igreja é obrigado a viver em estruturas de falsidade porque esse homem isolado se mantém fiel a sua visão intensamente pessoal". 

Tirania papal

Seria concebível que um autor não-católico tivesse redigido os primeiros 15 capítulos do livro de Wills -aqueles que retiram pedras para jogar luz no que se esconde debaixo delas, revelando prelados, acobertando desesperadamente acobertamentos anteriores. Mas apenas alguém que está envolvido na história da igreja e que participa regularmente da missa católica poderia ter escrito os últimos seis capítulos. Nestes, Wills pede a seus colegas católicos que não apenas derrubem a tirania papal, mas também renunciem à convicção de que sua igreja guarda as chaves do paraíso.

Wills vê como totalmente inválida a doutrina da sucessão apostólica, que afirma que Roma, mas não Canterbury ou Salt Lake City, pode suprir os sacerdotes que herdam dos apóstolos o poder de transubstanciar os elementos da eucaristia, com isso oferecendo aos fiéis a possibilidade de consumir o próprio corpo e sangue de Cristo. Ele preferiria que a teoria da transubstanciação nunca tivesse sido imaginada e que padres e bispos ainda fossem escolhidos pelas comunidades de fiéis (como eram na época de Agostinho), em lugar de serem indicados pelo departamento de pessoal da cúria. A igreja dos sonhos de Wills "não restringiria o sacerdócio aos padres, os magos da transformação eucarística. Não preferiria privar comunidades inteiras de seus sacerdotes a relaxar um código de celibato que nunca foi imposto aos apóstolos".

Num capítulo que o cardeal Joseph Ratzinger e outros dinossauros do Vaticano verão como o auge da irreverência e do desrespeito, Wills deplora o culto da Virgem. Ele sugere que os católicos localizem o elemento feminino do divino na Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, à qual se refere como "ela" em lugar de "it", o pronome sem gênero no inglês.

Muitos católicos que não se pautam pelas idéias de Ratzinger podem achar essa idéia exagerada. Apesar disso, podem espantar-se com o que Wills tem a lhes dizer sobre a ausência da maior parte da doutrina católica contemporânea (incluindo a mariologia) das Escrituras e das crenças dos fiéis nos primeiros quatro séculos depois de Cristo -espantar-se tanto quanto se espantaram os católicos dos tempos de Lutero ao ouvir algumas dessas mesmas coisas. Mas Lutero não teve nenhum desejo de dividir a igreja, e Wills tampouco. Ele anseia por reformas internas, não por um cisma. Quer que o próximo papa seja Gorbatchov, contra o Lênin de Pio 11. Wills leva completamente a sério o texto (João 14:6) que afirma que Cristo é verdade. Ele louva Agostinho, que qualifica como o teólogo que mais bem compreendeu e explicou essa afirmativa, e o toma como autoridade que fundamenta a visão de que "o novo pecado papal, o pecado do logro, é pior do que os pecados antigos e mais vívidos da cobiça material, da ambição soberba ou da licenciosidade sexual. Trata-se de um pecado espiritual, da frustração interior do acesso do Espírito à alma". Mas talvez tivesse mais dificuldade em conseguir a concordância de Agostinho quando diz: "Acho que minha igreja não detém o monopólio do Espírito, que respira onde Ela quer, em cada seita e igreja cristã. Na verdade, Ela respira em toda a vida religiosa, onde quer que seja que se dê ouvidos ao chamado da religião, entre judeus, budistas, muçulmanos e outros". Essa é a linguagem do século 19 de Acton, não do século 4º de Agostinho. 

Igreja livre e democrática

Wills é um historiador da liberdade americana cujos escritos infundiram nova vida às palavras de Jefferson e Lincoln. Como já se poderia prever, ele quer uma Igreja Católica livre e democrática, uma igreja que não tenha tempo para sair à caça de heresias e na qual o papa faça jus ao título antigo de "servo dos servos de Deus". No entanto Agostinho passou muito tempo detectando e denunciando heresias, e a mesma coisa terá que ser feita por qualquer instituição que quiser reivindicar para si uma ligação especial e privilegiada com o divino.

Se Deus realmente é generoso o suficiente para reconhecer que judeus e budistas dão ouvidos a seu chamado, então não está claro por que precisamos de uma igreja de Cristo. Mas, se de fato precisarmos dela, então ela irá excluir além de incluir, e a caça às heresias vai continuar sendo uma estratégia de exclusão inelutável.

A visão tradicional da igreja tem sido a de que Deus não é tão generoso assim e que os cristãos precisam acreditar que os apóstolos de Cristo e seus sucessores autorizados -mas não os de Joseph Smith, de Buda ou de Maomé- proporcionam os meios necessários à salvação. Agostinho teria concordado com isso, para melhor ou para pior. Wills não concorda. O momento de sua polêmica esplendidamente apaixonada o deixa frente a frente com a pergunta: uma igreja de Cristo idealmente honesta e livre ainda seria uma igreja?

Papal Sin
326 págs., US$ 25 de Garry Wills. Doubleday (Estados Unidos).
Onde encomendar
Em SP, na livraria Cultura (tel. 0/xx/11/ 285-4033), e, no RJ, na livraria Leonardo da Vinci (tel. 0/xx/21/533-2237).

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** RORTY, Richard. A autoridade dos papas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 02 jul. 2000. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0207200010.htm>. Acesso em: 02 fev. 2015.

Duas Profecias*


Richard Rorty

Profecias falhas muitas vezes ensejam leituras inestimavelmente inspiradoras. Tome dois exemplos: o Novo Testamento e o "Manifesto Comunista". Ambos foram pensados por seus autores como previsões do que iria acontecer -previsões baseadas no conhecimento supremo das forças que determinam a história humana. Ambos os conjuntos de previsões foram, até agora, um fiasco risível. Ambas as pretensões de conhecimento tornaram-se objetos do ridículo.

Cristo não voltou. Aqueles que sustentam que seu retorno é iminente e que seria prudente tornar-se membro de uma seita particular, a fim de preparar-se para esse evento, são corretamente vistos com suspeita. Ninguém pode provar, é claro, que o segundo advento não ocorrerá -o que forneceria evidência empírica da encarnação. Mas estamos à espera há um bom tempo.

Analogamente, ninguém poderá provar que Marx e Engels estavam errados ao afirmarem que "a burguesia forjou as armas que lhe trazem a morte" ("die Bourgoisie hat... die Waffen geschmiedet, die ihr den Tod bringen"). É possível que a globalização do mercado de trabalho, no próximo século, reverta a progressiva burguesificação do proletariado europeu e norte-americano e que se torne verdade que "a burguesia é incapaz de seguir reinando, pois é incapaz de assegurar uma existência aos escravos no interior da própria escravidão" ("die Bourgeoisie ist unfähig noch länger zu herrschen, weil sie unfähig ist ihrem Sklaven die Existenz selbst innerhalb der Sklaverei zu sichern"). Talvez ocorra, então, o colapso do capitalismo e a tomada do poder político por um proletariado virtuoso e esclarecido. Talvez, em resumo, Marx e Engels tenham errado por um ou dois séculos. Contudo, o capitalismo superou muitas crises no passado e aguardamos há um bom tempo por esse proletariado.

Mais uma vez, nenhum zombeteiro poderá dizer ao certo se o que os cristãos evangélicos designam como "tornar-se um Novo Ser em Jesus Cristo" não é uma experiência autenticamente transformadora, miraculosa. Mas os que declaram ter renascido dessa forma não parecem portar-se de maneira diversa do que se portavam no passado, pelo menos não tanto quanto esperávamos. Esperamos há um bom tempo que os prósperos cristãos se portem com mais dignidade do que os prósperos pagãos.

De modo análogo, não podemos dizer ao certo se algum dia vislumbraremos novos ideais que tomarão o lugar daqueles que Marx e Engels chamaram -com desdém- de "individualidade, independência e liberdade burguesas" ("Bourgeoispersönlichkeit, selbständigkeit und freiheit"). Mas aguardamos pacientemente que os regimes ditos marxistas expliquem exatamente como são esses ideais e como devem ser transformados em realidade. Até agora, todos esses regimes provaram ser retrocessos a uma barbárie pré-iluminista, e não estágios iniciais de uma utopia pós-iluminista.

Há também, é claro, aqueles que lêem as Escrituras cristãs para descobrir o que o futuro, dentro de alguns anos ou décadas, lhes reserva. Foi o caso de Ronald Reagan, por exemplo. Até recentemente, inúmeros intelectuais liam o "Manifesto Comunista" com o mesmo propósito. Assim como os cristãos aconselharam paciência e nos asseguraram que é injusto julgar Cristo pelos erros de seus fiéis sequazes, os marxistas nos asseguraram que todos os regimes "marxistas" foram, até hoje, perversões absurdas dos propósitos de Marx. Os poucos marxistas sobreviventes admitem, agora, que os partidos comunistas de Lênin, Mao e Castro não guardavam nenhuma semelhança com o poderoso proletariado dos sonhos de Marx, mas foram simples instrumentos de autocratas e oligarcas. Mas, nos dizem, algum dia haverá um genuíno partido revolucionário, um genuíno partido do proletariado -um partido cujo triunfo nos trará uma liberdade tão diversa da "liberdade burguesa" quanto a doutrina cristã de que o amor é a única lei difere dos ensinamentos arbitrários do Levítico.

A maioria de nós não leva mais a sério nem os adiamentos ou as ratificações marxistas ou cristãs. Mas isso não nos impede, nem deve nos impedir, de buscar inspiração e encorajamento no Novo Testamento e no "Manifesto". Pois ambos os documentos são expressão da mesma esperança: que um dia seremos capazes de tratar as necessidades de todos os seres humanos com o respeito e a consideração com que tratamos as necessidades daqueles que nos são mais próximos e que amamos.

Ambos os textos acumularam um grande poder inspirador ao longo dos anos. Os dois são documentos fundadores de movimentos que fizeram muito pela liberdade e igualdade humanas. Até hoje, ambos inspiraram inúmeros homens e mulheres valentes e abnegados, que arriscaram as suas vidas e fortunas para impedir que as gerações futuras sofressem inutilmente. É possível que haja tantos mártires socialistas quanto mártires cristãos. Se a esperança humana puder sobreviver a ogivas carregadas de carbúnculo, a inventos nucleares do tamanho de valises, à superpopulação, ao mercado de trabalho globalizado e aos desastres ambientais do próximo milênio, e se tivermos descendentes que, daqui a um século, ainda sejam capazes de consultar os registros históricos ou buscar inspiração no passado, talvez eles se recordem de Santa Inês e Rosa Luxemburgo, de São Francisco e Eugene Debs, de Padre Damien e Jean Jaurès como membros de um só movimento.

Do mesmo modo que o Novo Testamento é lido por milhões de pessoas que não perdem muito tempo pensando se Cristo retornará algum dia, assim também o "Manifesto Comunista" ainda é lido por quem espera e acredita que a justiça social pode ser atingida sem uma revolução do tipo previsto por Marx: que uma sociedade sem classes, um mundo "em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos" ("worin die freie Entwicklung eines jeden, die Bedingung für die freie Entwicklung aller ist"), pode surgir como consequência daquilo que Marx desdenhava como "reformismo burguês". Pais e professores deviam encorajar os jovens a ler esses dois livros. O jovem será moralmente melhor por tê-los lido.

Devemos educar nossos filhos para que considerem insuportável o fato de nós, leitores do "Frankfurter Allgemeine Zeitung", sentados atrás de mesas e computadores, ganharmos dez vezes mais do que aqueles que sujam as mãos limpando lavabos e cem vezes mais do que aqueles que fabricam nossos computadores no Terceiro Mundo. Devemos nos certificar de que eles tenham consciência de que os países pioneiros na industrialização possuem uma riqueza cem vezes maior do que aqueles que ainda não se industrializaram. Os nossos filhos têm de aprender, desde cedo, a enxergar as desigualdades de suas fortunas e aquelas de outras crianças não como a "Vontade de Deus", nem como "o preço necessário da eficiência econômica", mas como uma tragédia evitável. Eles devem começar a pensar, o mais cedo possível, sobre como modificar o mundo, de modo a fazer com que ninguém passe fome enquanto outros se empanturram.

As crianças precisam ler a mensagem de fraternidade humana de Cristo em conjunto com o relato de Marx e Engels sobre como o capitalismo industrial e o mercado livre -indispensáveis como são hoje- tornaram muito difícil instituir essa fraternidade. Elas precisam ver as suas vidas como esforços no sentido de realizar a nossa potencialidade moral, inerente a nossa capacidade de comunicar as nossas necessidades e esperanças. Elas devem ouvir histórias sobre as congregações cristãs que se reuniam nas catacumbas e sobre os comícios de operários nas praças de metrópoles. De fato, ambos cumpriram papéis igualmente importantes no longo processo de realização dessas potencialidades.

O conteúdo inspirador do Novo Testamento e do "Manifesto Comunista" não é diminuído pelo fato de milhões de pessoas terem sido escravizadas, torturadas ou terem morrido de fome a mando de pessoas sinceras ou moralmente sérias, que recitavam trechos de um ou de outro texto, a fim de justificar seus atos. A lembrança dos porões da Inquisição e das salas de interrogatório da KGB, da cobiça e arrogância impiedosas do clero cristão e da nomenclatura comunista deve, de fato, advertir-nos contra o perigo de depositar o poder nas mãos de algumas pessoas que alegam saber o que Deus, ou a História, quer. Muitas vezes, a esperança assume a forma de uma previsão errada, como ocorreu em ambos os documentos. Porém a esperança pela justiça social é a única base para uma vida humana digna desse nome.

Cristianismo e marxismo ainda podem causar muito mal, pois tanto o Novo Testamento quanto o "Manifesto Comunista" ainda podem, efetivamente, ser evocados por hipócritas morais ou gângsteres egocêntricos. No meu próprio país, por exemplo, uma organização chamada Coalizão Cristã mantém sob rédea curta o Partido Republicano (e portanto o Congresso). Os líderes de tal movimento convenceram milhões de eleitores que taxar os bairros ricos para auxiliar os guetos é algo pouco cristão. Em nome dos "valores da família cristã", a coalizão ensina que o amparo do governo norte-americano a crianças de mães adolescentes, desempregadas e solteiras acabaria por "minar a responsabilidade individual".

As atividades da coalizão são menos violentas do que as do movimento peruano Sendero Luminoso, hoje já moribundo. Mas os resultados de sua obra são igualmente funestos. O Sendero Luminoso, em seu auge assassino, era encabeçado por um professor de filosofia perturbado, que acreditava ser o sucessor de Lênin e Mao: um intérprete contemporâneo inspirado nos escritos de Marx. A Coalizão Cristã é encabeçada por um tele-evangelista carola: o reverendo Pat Robertson -um intérprete contemporâneo dos Evangelhos que, provavelmente, causa muito mais sofrimento nos Estados Unidos do que Abiel Guzmán conseguiu causar no Peru.

Em suma: é melhor, ao ler o "Manifesto" ou o Novo Testamento, ignorar os profetas que se dizem intérpretes autorizados de um ou outro texto. Ao ler os próprios textos, devemos relevar as previsões e nos concentrar nas expressões de esperança. Devemos ler a ambos como documentos inspiradores, apelos ao que Lincoln chamava "os melhores anjos de nossa natureza", e não como relatos precisos da história do destino humano.

Se tratarmos o termo "cristianismo" como o nome deste apelo, e não como uma pretensão ao conhecimento, essa palavra ainda designará uma força poderosa, a serviço da dignidade e da igualdade humanas. "Socialismo", de forma semelhante, será o nome da mesma força -um nome atualizado, mais preciso. "Socialismo cristão" será um pleonasmo: hoje, não se pode esperar pela fraternidade que pregam os Evangelhos sem esperar que os governos democráticos redistribuam a renda e as oportunidades, em oposição ao mercado. Não se pode levar a sério o Novo Testamento como um imperativo moral, e não como uma profecia, sem levar igualmente a sério a necessidade de uma tal redistribuição.

Datado como é o "Manifesto", ainda assim ele é uma declaração admirável da grande lição que aprendemos ao ver o capitalismo industrial em ação: que a derrubada de governos autoritários e o advento da democracia constitucional não bastam para assegurar a igualdade ou a dignidade humanas. Hoje, assim como em 1848, é inegável que os ricos tentarão ficar mais ricos ao fazer os pobres mais pobres, que a total mercantilização do trabalho levará à miséria dos assalariados, que "o Executivo do Estado moderno é apenas um comitê que administra os negócios comuns de toda a classe burguesa" ("Die moderne Staatgewalt ist nur ein Ausschuss, der die gemeinschaftlichen Geschäfts der ganzen Bourgeoisklasse verwaltet").

A distinção proletariado-burguesia hoje talvez soe tão antiquada como a distinção cristão-pagão, mas se substituirmos "os 20% mais ricos" pelo termo "burguesia" e "os outros 80%" pelo termo "proletariado", a maioria das frases do "Manifesto" permanecerá verdadeira (é claro, porém, que elas soam um pouco menos verdadeiras em "Welfare States" totalmente desenvolvidos, como a Alemanha, e um pouco mais verdadeiras em países como o meu, no qual a cobiça predomina e as conquistas do "Welfare State" são rudimentares).

Dizer que a história é a história da luta de classes ainda é verdadeiro, se seu significado for que, em toda cultura, sob qualquer forma de governo e em todas as situações imagináveis (na Inglaterra, quando Henrique 8º dissolveu os monastérios, na Indonésia, depois que os holandeses partiram, na China, após a morte de Mao, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos de Thatcher e Reagan), as pessoas que já tenham posto as mãos no poder e no dinheiro farão de tudo para que seus descendentes os monopolizem para sempre.

Se a história apresenta um espetáculo moral, este é a luta para romper tais monopólios. O uso da doutrina cristã para pleitear a abolição da escravatura (e para repudiar o equivalente norte-americano das leis de Nurembergue -as leis de segregação racial) revela o melhor do cristianismo. O uso da doutrina marxista para despertar a consciência dos operários, para esclarecer-lhes como eles são explorados, revela o melhor do marxismo. Quando elas se fundem, como no movimento "Evangelho Social", nas teologias de Paul Tillich e Walter Rauschenbusch e nas encíclicas papais mais socialistas, a luta pela justiça social pode transcender as controvérsias entre teístas e ateístas. Tais controvérsias devem ser superadas: importa muito mais (é o que ensina o Novo Testamento) a forma de tratarmos os outros no dia-a-dia do que o resultado de disputas sobre a existência ou a natureza de outro mundo.

O movimento sindical, que Marx e Engels pensavam apenas como uma transição para os partidos políticos revolucionários, revelou-se a encarnação mais inspirada das virtudes cristãs da abnegação e da ágape fraternal já registrada na história. A ascensão dos sindicatos, sob o aspecto ético, é o desenvolvimento mais promissor dos tempos modernos. Ele testemunhou o mais puro e altruísta heroísmo. Embora muitos sindicatos tenham se tornado corruptos e outros, petrificados, a estatura moral dos sindicatos faz sombra à igreja e às empresas, aos governos e às universidades. Pois os sindicatos foram fundados por homens e mulheres que tinham muito a perder -arriscava-se perder o trabalho e não levar comida para os familiares. Eles assumiram esse risco em proveito de um futuro humano melhor, e todos lhes somos gratos. As organizações por eles fundadas estão santificadas pelos seus sacrifícios.

O "Manifesto" inspirou os fundadores da maioria dos sindicatos dos tempos modernos. Ao citarem as suas palavras, os fundadores dos sindicatos são capazes de incitar milhões de operários contra as condições degradantes e os salários de fome. Tais palavras reforçaram a crença de que o sacrifício dos grevistas -sua disposição de ver suas crianças passarem fome, mas não de ceder às exigências de maior retorno para o investimento do proprietário- não seria em vão. Um texto que foi capaz disso sempre fará parte dos tesouros de nosso legado intelectual e espiritual.

De fato, o "Manifesto" exprimiu algo de que os trabalhadores aos poucos se davam conta: "Em vez de se erguer com o progresso da indústria", o trabalhador corria o risco de "afundar, cada vez mais, abaixo das condições de existência de sua própria classe" ("Die moderne Arbeiter dagegen, statt sich mit dem Fortschritt der Industrie zu heben, sinkt immer tiefer unter die Bedingungen seiner eignen Klasse hinab"). Na Europa e nos Estados Unidos, tal risco foi evitado, ao menos por certo tempo, graças à coragem de trabalhadores que leram o "Manifesto" e, como resultado, sentiram-se no dever de exigir sua parcela de poder político. Se esperassem pela bondade e caridade de seus superiores, suas crianças ainda seriam analfabetas e mal-nutridas.

As palavras do Evangelho e do "Manifesto" talvez tenham proporcionado igual quantidade de coragem e inspiração. Mas, em muitos aspectos, o "Manifesto" é um livro mais apropriado ao jovem do que o Novo Testamento. Este último, de fato, padece do defeito moral do escapismo: a sua sugestão de que podemos separar o problema de nossa relação individual com Deus -a nossa chance individual de salvação- de nossa participação nos esforços cooperativos para dar cabo de sofrimentos inúteis. Muitas passagens dos Evangelhos sugeriram que os proprietários de escravos tinham legitimidade em fustigar seus escravos e que os ricos podiam deixar os pobres morrerem de fome. Afinal de contas, todos eles iriam para o céu e seus pecados seriam perdoados por terem aceitado Cristo como Senhor.

Como texto do mundo antigo, o Novo Testamento aceita uma das convicções centrais dos filósofos gregos, para quem a contemplação das verdades universais era a vida ideal para um ser humano. Segundo essa convicção, as condições sociais da vida humana nunca mudarão, ao menos em nenhum aspecto importante: sempre teremos pobres ao nosso lado -e talvez também escravos. Tal convicção leva os autores do Novo Testamento a desviarem a atenção da possibilidade de um futuro melhor e a se concentrarem na esperança de um lugar no céu. A única utopia que tais autores imaginam situa-se num outro mundo, totalmente diverso.

Nós, modernos, somos superiores aos antigos -tanto pagãos quanto cristãos- em nossa capacidade de imaginar uma utopia aqui na Terra. Os séculos 18 e 19 testemunharam, na Europa e na América do Norte, uma alteração radical na esperança humana -uma alteração da eternidade para o tempo futuro, da especulação sobre como ganhar as benesses divinas para o planejamento da felicidade das gerações futuras. Essa noção de que o futuro humano pode ser modificado pelo passado, desvinculado de poderes não-humanos, é magnificamente expresso no "Manifesto".

Seria melhor, é claro, se tivéssemos um novo documento para dar inspiração e esperança às crianças -que fosse isento dos defeitos do Novo Testamento e do "Manifesto". Seria bom se houvesse um texto reformista, que prescindisse do caráter apocalíptico dos dois livros -que não dissesse que todas as coisas precisam ser refeitas ou que a justiça "só pode ser alcançada por meio da destruição violenta de toda a ordem social existente" ("nur erreicht werden -kann- durch den gewaltsamen Umsturz aller bisherigen Gesellschasftsordnung"). Seria bom se houvesse um documento que exprimisse os detalhes dessa utopia terrena, sem nos assegurar que essa utopia emergirá com plena maturidade, e rapidamente, tão logo algumas mudanças decisivas sejam tomadas -tão logo a propriedade privada seja abolida ou tão logo aceitemos Jesus em nosso coração.

Seria melhor, em suma, poder conviver sem profecias ou pretensões ao conhecimento das forças determinantes da história -se é que esta esperança pode se sustentar sem tal apoio. Talvez algum dia tenhamos um novo texto para dar a nossas crianças -um que se abstenha de previsões, mas expresse o mesmo anseio por fraternidade que o Novo Testamento e esteja cheio de acuradas descrições das formas mais recentes de desumanidade, como o "Manifesto". Nesse ínterim, só temos a agradecer a esses dois textos, que nos ajudaram a ser pessoas melhores e a superar, em certa medida, nosso egoísmo grosseiro e nosso sadismo cultivado.

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* RORTY, Richard. Duas profecias. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mai. 1998. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs24059808.htm>. Acesso em: 02 fev. 2015.

Resenha - A utopia pragmatista*


Jézio Hernani Bonfim Gutierre**

A voga da filosofia norte-americana é reconhecida, e Richard Rorty é um dos responsáveis por isso, tanto no papel de participante ativo quanto no de propagador dessa linhagem que ele próprio remonta a Emerson, James e Dewey. Sua persistente pregação neopragmatista continua no livro agora traduzido.

No primeiro capítulo, "Verdade sem Correspondência com a Realidade", o autor desenvolve sua conhecida crítica à noção de verdade correspondencial e propõe um objetivo pragmático para a inquirição gnosiológica, seja ela científica ou não: qualquer enunciado deve ser julgado não conforme seu poder de acuradamente espelhar o mundo, mas a partir de sua utilidade. À questão óbvia "útil para quê?", Rorty responde: útil no sentido de criar um mundo melhor, um mundo que propicie maior diversidade e liberdade. Essa "utopia pragmatista" tem necessariamente uma tessitura aberta, seria um universo à "Blade Runner", algo não limitado seja pela imposição de uma realidade imutável à qual deveríamos obedecer, seja por uma dada natureza única da mente humana que, a seu ver, teria como única característica distintiva a própria plasticidade.

Obedecendo as premissas definidas na seção anterior, no segundo capítulo, "O Mundo sem Substâncias ou Essências", Rorty equipara sua versão de pragmatismo a um antiessencialismo. Não há características intrínsecas aos objetos e só podemos considerá-los de maneira relacional. Essa conclusão tem sua contrapartida numa imagem darwiniana da linguagem, isto é, não como um instrumento que descreve as características imanentes de objetos, mas como um artefato que pode refletir a forma como o homem, na qualidade de antropóide superior, se relaciona com o meio que habita.

O terceiro capítulo, "Ética sem Obrigações Universais", se concentra sobre a distinção entre moralidade e prudência. Como sempre, o vilão a ser condenado é o transcendentalismo imanente que exige a incondicionalidade e imutabilidade das regras morais. Para Rorty, a busca do Bem é tão fadada ao fracasso quanto a busca da Verdade. Para substituir esses dois empreendimentos clássicos, sugere prestigiar a criatividade, uma aposta em nossa capacidade de criar formas de vida inesperadas e mais interessantes, um futuro melhor -presumivelmente, sempre conforme o preceito de liberdade e diversidade.

"A Filosofia e o Futuro" aprofunda a conclusão precedente e une a própria justificativa da empresa filosófica à tarefa de ajustar a linguagem do passado às necessidades do futuro. Leibniz e Kant supostamente constituiriam exemplo paradigmático disso quando assumiram a responsabilidade de coadunar a linguagem associada às intuições morais da teologia cristã com o advento da física newtoniana.

Um ensaio autobiográfico

No pequeno ensaio autobiográfico que fecha a coletânea, "Trótski e as Orquídeas Selvagens", Rorty descreve rapidamente sua trajetória intelectual, discutindo um dos elementos fundamentais que originalmente definiram seu interesse pela filosofia: como conciliar a responsabilidade em relação aos demais seres humanos (algo que associava às preocupações que Trótski teria vivenciado) e os sentimentos pessoais que nutrimos pelas pessoas ou coisas que amamos (as "orquídeas", citadas no título)? Conclui que não há qualquer necessidade racional de que esses dois pólos coincidam. Ainda aqui, Rorty não perde a oportunidade de açoitar seu alvo constante: nada que possa ser descoberto por meio da razão, como os transcendentalistas, ao estilo de Kant ou Espinosa, pretenderam, poderia demonstrar a necessidade de comunhão com outros seres humanos. O que define o avanço da humanidade em direção a formas de vida mais benevolentes é um sentimento de indignação e consequente solidariedade perante a dor alheia, algo que ocorre independentemente de demonstrações.

Mesmo abordando praticamente todas as complexas e polêmicas personagens e teses canônicas do universo rortiano, esta coletânea é sempre clara e acessível. O estilo lembra, às vezes, o de um diário íntimo intelectual em que o autor despretensiosamente resenha os elementos de seu sistema. Nesse sentido, pode-se dizer que é uma eficiente introdução a Rorty, especialmente para aqueles que não têm a disposição necessária para enfrentar seus trabalhos mais ambiciosos. Assim, se o que se procurou alcançar foi um retrato resumido e acessível desse filósofo influente, a seleção de textos foi uma boa idéia que não é deslustrada mesmo pela tradução algumas vezes sofrível -transgressões como "self moral e self não-empírico" kantiano (cf. pág. 105) e predileção por galicismos como "adequam" (cf. págs. 97 e 139) não são raras.

Embora, como foi dito, cumpra bem o papel de uma introdução ao pensamento de Rorty, e talvez por isso mesmo, no livro não se pretende acrescentar muito ao que o autor de "A Filosofia e o Espelho da Natureza" já argumentou em artigos e livros anteriores e, assim, deixa pendentes as mesmas questões que leitores atentos sempre lhe dirigiram. Evidentemente, não cabe fazer um mapeamento desses problemas que talvez sejam inevitáveis para um pensador que pretende ser original e não quer chancelar nenhuma das alternativas tradicionais, e isso não deveria obscurecer o significado de Rorty para a filosofia contemporânea: o debate "edificador" (conforme sua própria terminologia) que ajuda a promover é um dos importantes definidores da agenda filosófica da próxima década, razão mais que suficiente para justificar a leitura deste livro por um público mais amplo.

Pragmatismo: A Filosofia da Criação e da Mudança
Richard Rorty
Organização e tradução: Cristina Magro e Antonio Marcos Pereira
Editora UFMG (Tel. 0/xx/31/3499-4650)
192 págs., R$ 18,00

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* GUTIERRE, Jézio H. B. A utopia pragmatista. Folha de S. Paulo, São Paulo, 09 dez. 2000. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs0912200015.htm>. Acesso em: 02 fev. 2015.

** Jézio H. B. G. é professor do Departamento de Filosofia da UNESP.

A utopia de Gadamer*


Richard Rorty

Num ensaio chamado "Filosofia ou Teoria da Ciência?", Hans-Georg Gadamer indaga se "em algum sentido ainda pode haver filosofia a não ser no sentido da teoria da ciência" ("Razão na Era da Ciência"). Sua própria resposta a essa questão é afirmativa, obviamente. Costuma-se pensar que a chamada tradição "analítica" na filosofia - a tradição que remonta a Frege e Russell e cujos representantes vivos mais proeminentes são Quine, Davidson, Dummett e Putnam - retrucaria uma resposta negativa. Isso porque se costuma julgar essa tradição como uma espécie de órgão de relações públicas das ciências naturais. Quem pensa em filosofia analítica dessa maneira costuma descrever a própria obra de Gadamer como uma espécie de apologia das ciências do espírito. Sob esse ponto de vista, cada uma das "duas culturas", assim batizadas por C.P. Snow, tem seus adeptos filosóficos. Aqueles que aceitam o retrato da cena intelectual pintado por Snow julgam que a disputa entre ciência e religião - disputa que dividiu os intelectuais no século 19 - evoluiu para a disputa contemporânea entre aqueles que nós, californianos, chamamos "os tecnos" e "os obscuros". Esse retrato cru e simplificado das tensões no interior da filosofia contemporânea não é de todo equivocado. Mas uma exposição mais detalhada da história da filosofia no século 20 distinguiria entre uma primeira fase cientificista da filosofia analítica e uma segunda fase, anticientificista. Entre 1900 e 1960, a maioria dos admiradores de Frege teria concordado com o dito de Quine de que "a filosofia da ciência é filosofia o bastante". Mas sobreveio uma mudança na filosofia analítica por volta da época em que os filósofos começaram a ler as "Investigações Filosóficas" de Ludwig Wittgenstein lado a lado com "A Estrutura das Revoluções Científicas", de Thomas Kuhn. Desde então, mais e mais filósofos analíticos têm dado razão a Putnam, para quem "parte do problema com a filosofia atual é um cientificismo herdado do século 19". Putnam nos incita a abandonar a idéia de que a ciência natural possui um "método" insigne, um método que torna a física um melhor paradigma de racionalidade que, por exemplo, a historiografia ou a jurisprudência. Ele é secundado nesse apelo por filósofos da física como Arthur Fine, que nos convida a abandonar a suposição de que a ciência natural "é especial, e que o pensamento científico é diverso dos demais". Putnam e Fine ridicularizam a idéia de que o discurso da física tenha de algum modo maior contato com a realidade que qualquer outra parcela da cultura. A filosofia da linguagem pós-wittgensteiniana de língua inglesa, do tipo encontrado em Putnam, Davidson e Brandom, tem colaborado com a filosofia da ciência pós-kuhniana de língua inglesa, do tipo encontrado em Latour, Hacking e Fine. O resultado dessa colaboração tem sido borrar as fronteiras entre as ciências natural e do espírito - uma tentativa de fazer com que a controvérsia "tecnos versus obscuros" de Snow pareça tão exótica quanto o debate oitocentista sobre a idade da Terra. 

Essências e acidentes

Isso não quer dizer que o cientificismo esteja morto. Há muitos filósofos analíticos de envergadura, em particular seguidores de Kripke, como David Lewis e Frank Jackson, que são inabaláveis metafísicos fisicalistas. Eles se julgam herdeiros da batalha contra o contra-senso mistificador que Thomas Huxley moveu contra o bispo Wilberforce, Russell contra Bergson e Carnap contra Heidegger. Esse filósofos ainda conferem um status ontológico especial às partículas elementares descobertas pelos físicos. Eles acreditam que a ciência natural nos dá essências e necessidades que são, como dizem, "de re", e não "de dicto". Eles julgam que os filósofos da linguagem wittgensteinianos são perigosamente irracionalistas quando dizem que toda a distinção entre essências e acidentes, ou entre necessidades e contingências, são artefatos que mudam à medida que muda nossa escolha de descrição. Eles acham que os filósofos da ciência estão igualmente enganados ao recusarem à ciência natural qualquer privilégio metafísico ou epistemológico.

Essa disputa para saber se a ciência natural é especial hoje domina a filosofia analítica. Nestes meus comentários, pretendo sugerir que uma frase bastante citada e bastante discutida de Gadamer talvez sirva de lema para aqueles filósofos da linguagem e da ciência que seguem Putnam e Fine em vez de Kripke e Lewis. A frase é: "O ser que pode ser compreendido é linguagem". Essa afirmação engloba, segundo meu argumento, tanto o que era verdadeiro no nominalismo quanto o que era verdadeiro no idealismo.

Defino "nominalismo" como a doutrina de que todas as essências são nominais e todas as necessidades, "de dicto". Isso equivale a dizer que nenhuma descrição de um objeto é mais verdadeira à natureza desse objeto do que qualquer outra. Os nominalistas julgam que a metáfora de Platão sobre trinchar a natureza nas juntas deveria ser abandonada de uma vez por todas. Adeptos do nominalismo costumam ser descritos como "idealistas linguísticos" pelos metafísicos materialistas. Isso porque esses últimos acreditam que Dalton e Mendeleiev de fato trincharam a natureza nas juntas. Dessa perspectiva kripkiana, os wittgensteinianos são tão ébrios de palavras que perderam contato com o mundo real, o mundo que a ciência moderna nos franqueou. Filósofos desse tipo aceitam o relato da história da filosofia que Gadamer resumiu ao escrever: "O pronto colapso do império hegeliano do espírito absoluto confirma enfaticamente o fim da metafísica, ou seja, a ascensão das ciências experimentais a uma posição de vanguarda no reino do espírito pensante" ("Razão na Era...").

O nominalismo, contudo, é um protesto contra qualquer tipo de metafísica. É certo que ele foi equivocadamente associado ao materialismo por Hobbes e outros filósofos do início da época moderna e ainda hoje é assim associado por Quine. Mas esses pensadores se contradizem ao sustentar que palavras cuja referência são as menores partes da matéria trincham a natureza nas juntas de um modo que outras palavras não fazem. Um nominalista coerente insistirá que o sucesso profético e explicativo de um vocabulário corpuscular não tem respaldo em seu status ontológico e que a própria idéia de "status ontológico" deve ser abandonada.

Isso significa que um nominalista coerente não pode endossar uma organização hierárquica do reino da mente pensante que corresponda, como os quadros organizacionais de Platão, a uma hierarquia ontológica. As lutas pela primazia entre metafísica e física, ou entre "tecnos" e "obscuros", parecem ridículas de uma perspectiva nominalista. E assim também a distinção de Heidegger entre metafísica e pensamento ("Denken"), ou ainda sua afirmação de que "no fim, a tarefa da filosofia é conservar a força das palavras mais elementares" ("Sein und Zeit").

Para um nominalista, palavras como "physis" ou "essência" não são mais "elementares" ou "primordiais" que palavras como "berinjela" e "beisebol". As palavras mais sonoras não possuem privilégio filosófico sobre os mais crus neologismos, e nem as partículas elementares sobre os últimos artefatos humanos. Para defender minha sugestão de que o nominalismo é melhor resumido pela doutrina de Gadamer segundo a qual só a linguagem pode ser compreendida, exponho a objeção óbvia a esse argumento. Os "tecnos" são rápidos em protestar que o paradigma do aumento da compreensão remonta à apreensão da natureza do universo físico nas ciências modernas -um universo que não é linguagem. A réplica nominalista a tal objeção é: nós nunca compreendemos nada exceto sob uma descrição, e não há descrições privilegiadas. Não há como desviar de nossa linguagem descritiva para alcançar o objeto tal como é em si mesmo -não porque nossas faculdades sejam limitadas, mas porque a distinção entre "para nós" e "em si mesmo" é uma relíquia de um vocabulário metafísico, que sobreviveu à sua utilidade. Devemos interpretar a expressão "compreender um objeto" como uma forma equivocada de descrever nossa capacidade de relacionar velhas descrições com outras novas. Ela é equivocada porque sugere, como faz a teoria da verdade como correspondência, que as palavras podem ser confrontadas com não-palavras, a fim de descobrir quais palavras são adequadas ao mundo. 

Novos e velhos predicados

Segundo os nominalistas, o progresso feito pela ciência moderna consiste em formular novas descrições do universo físico e então fundir os horizontes desses novos discursos com aqueles do senso comum e de antigas teorias científicas. Em termos mais gerais, compreender algo melhor é ter mais a dizer sobre ele, é ser capaz de reunir as várias coisas ditas antes de uma maneira nova e perspicaz. O que os metafísicos chamam aproximar-se da verdadeira natureza de um objeto, os nominalistas chamam inventar um discurso em que novos predicados são atribuídos à coisa previamente identificada por velhos predicados -e então fazer com que esses novos atributos se harmonizem com os antigos de modo a darem conta do fenômeno. Ou, nos termos hegelianos de Robert Brandom: compreender a natureza de um objeto é ser capaz de recapitular a história do conceito desse objeto. Essa história, por sua vez, é simplesmente a história dos usos das várias palavras empregadas para descrever o objeto. A tese central do idealismo é que a verdade é determinada pela coerência em vez da correspondência à natureza intrínseca do objeto. Essa doutrina sugere, embora não imponha, a tese do nominalismo: que devemos substituir a noção de "natureza intrínseca" pela de "descrição identificadora". Pois as noções de essência real e verdade-como-correspondência mantêm-se de pé ou vêm abaixo juntas. O lema de Gadamer nos fornece uma forma de varrer ambas do caminho. De fato, esse lema não é uma descoberta metafísica sobre a natureza do ser. É uma redescrição do processo que chamamos "aumentar nossa compreensão". Dos gregos até nós, esse processo foi descrito geralmente com a ajuda de metáforas falocêntricas de profundidade. Quanto mais profunda e penetrante nossa compreensão de algo, assim dizem, mais afastados estamos da aparência e mais perto da realidade. Adotar o lema de Gadamer tem como efeito substituir essas metáforas de profundidade por metáforas de amplitude: quanto mais descrições estiverem disponíveis e quanto maior a integração entre elas, melhor nossa compreensão do objeto identificado por qualquer dessas descrições. 

A matéria e a missa

Nas ciências naturais, o exemplo óbvio dessa melhor compreensão é a integração de um vocabulário macroscópico a outro microscópico. Mas a diferença entre esses dois conjuntos de descrições não tem maior significado ontológico ou epistemológico que entre uma descrição da missa nos termos da teologia católica ortodoxa e uma descrição nos termos da antropologia comparada. Em nenhum dos casos há profundidade maior ou maior aproximação à realidade. Mas em ambos há aumento de compreensão. Compreendemos melhor a matéria após os corpúsculos de Hobbes serem suplementados pelos átomos de Dalton, e então pelos de Bohr. Compreendemos melhor a missa depois de Frazer; e melhor ainda depois de Freud. Mas, se seguirmos as implicações do lema de Gadamer, resistiremos à tentação de dizer que agora compreendemos o que a matéria ou a missa realmente é. Devemos ser cautelosos para não explicar a distinção entre maior e menor compreensão com a ajuda de uma distinção entre aparência e realidade. 

Véu das aparências

A última distinção tem um uso legítimo, não-filosófico, para descrever as perpétuas ilusões, a chicana financeira, a propaganda governamental, a publicidade enganosa e assim por diante. Mas o progresso intelectual é apenas ocasionalmente uma questão de detectar ilusões ou mentiras. A distinção aparência-realidade não é mais apropriada para descrever os avanços feitos entre Priestley e Bohr do que os avanços feitos em nossa compreensão da "Ilíada". Gabamo-nos de nossa capacidade de fundir as próprias descrições de Homero de seus poemas com aquelas usadas por Platão, Virgílio, Alexander Pope, pelos filólogos do século 19 e pelas feministas acadêmicas do século 20. Mas não dizemos, nem deveríamos, que penetramos o véu das aparências que originalmente nos separava da natureza intrínseca do poema. O poema não tem uma tal natureza, e a matéria tampouco.

O debate "tecnos versus obscuros", tal como o debate religioso do século 19, é uma disputa sobre qual área da cultura fornece um relato preciso de como as coisas "realmente" são. Mas, à medida que o século 20 avançava, propostas para a coexistência pacífica entre religião e ciência proliferaram, e o debate sobre os respectivos méritos das duas começou a parecer pueril.

Com sorte, o debate entre "tecnos" e "obscuros" irá dissipar-se da mesma maneira no curso dos próximos cem ou 200 anos. Pois a tentativa de encontrar uma diferença filosoficamente interessante entre "tecnos" e "obscuros" foi um sintoma da tentativa de preservar uma certa imagem da relação entre linguagem e entidades não-humanas. Essa é a imagem que os nominalistas wittgensteinianos e os filósofos da ciência kuhnianos estão ajudando a abandonar. Se eles tiverem êxito, não acharemos mais paradoxal afirmar que "o ser que pode ser compreendido é linguagem". Esse lema será tomado como um lugar-comum do que seja compreensão, e não como uma tentativa arquitetada para melhorar a imagem das ciências do espírito. 

Joio e trigo

Gadamer já foi muitas vezes acusado de inventar uma variante linguística do idealismo. Mas, como sugeri antes, devemos tomá-lo com alguém que guardou o trigo do idealismo e jogou fora o joio metafísico. O idealismo só passou a ser malvisto porque custou a abandonar a distinção aparência-realidade. Uma vez posta de lado essa distinção, idealismo e nominalismo tornam-se dois nomes de uma mesma posição filosófica. Os efeitos colaterais dessa distinção podem ser vistos em Berkeley. Tendo dito que "nada pode ser como uma idéia exceto uma idéia", Berkeley inferiu que somente idéias e mentes são verdadeiras. O que deveríamos ter dito era que somente uma sentença pode ser relevante para a verdade de outra sentença, uma tese nominalista que é livre de implicações metafísicas. A metafísica de Berkeley é um resultado típico da idéia de que pensamentos ou sentenças se acham de um lado do abismo e são verdadeiras apenas se se relacionarem com algo que esteja do outro lado do abismo. Essa imagem cativou Berkeley e levou-o a concluir que aquilo que se achava do outro lado era homogêneo ao que se achava deste lado, que a realidade era de alguma forma mental ou espiritual em sua natureza. Idealistas posteriores, como Hegel e Royce, recaíram nesse erro ao definir a realidade como conhecimento perfeito ou perfeita autoconsciência. Essa também foi uma tentativa de tornar o abismo transitável, fazendo com que nossa situação epistêmica atual fosse análoga à situação epistêmica ideal, com que nossa própria rede de estados mentais fosse análoga à de Deus. Mas esse tipo de especulação panteísta deixou o idealismo vulnerável ao cientificismo, ao justificado desdém daqueles para quem a tese de que só o mental é real não passa de uma "reductio ad absurdum" da metafísica. E assim é, porém não mais do que a tese de que só o material é real. Ir além da metafísica é deixar de se perguntar o que é ou não é real. 

A virada linguística

Nossa capacidade de voltar as costas a essa pergunta aumentou quando demos aquilo que Gustav Bergman chamou a "virada linguística", virada essa dada quase simultaneamente por Frege e Peirce. Isso porque tal guinada possibilitou a positivistas lógicos como Ayer retirar o que havia de metafísica na teoria da verdade como correspondência. Eles nos incitaram a parar de falar sobre como cruzar o abismo que separava o sujeito do objeto e falar em vez disso sobre como as asserções de sentenças se justificam. Os positivistas viram que, tão logo substituímos linguagem por "experiência" ou "idéias" ou "consciência", não podemos mais reconstruir a tese de Locke segundo a qual as idéias de qualidades primárias têm alguma espécie de relação mais próxima à realidade que as idéias de qualidades secundárias. Mas foi precisamente essa tese que a revolta kripkiana contra Wittgenstein exumou. Ao fazê-lo, os kripkianos estavam proclamando que a virada linguística fora uma idéia ruim, idealista. O atual debate entre os kripkianos e seus colegas, os filósofos analíticos, é uma forma de dar seguimento ao antigo debate sobre o que havia de verdadeiro no idealismo. Um modo mais frutífero, porém, de abordar esse debate talvez seja aceitar uma sugestão de Heidegger. 

Metáforas falocêntricas

Heidegger via a série de grandes metafísicos, de Platão a Nietzsche, como aficionados por controle: pessoas convictas de que o pensamento nos faria alcançar o domínio. De acordo com Heidegger, as metáforas falocêntricas dos nominalistas sobre a profundidade e a penetração são expressões do desejo de tomar posse da cidadela do universo. A idéia de se tornar idêntico ao objeto do conhecimento, de representá-lo como ele realmente é em si mesmo, exprime o desejo de adquirir o poder do objeto.

O cientificismo do século 19 zombava da religião e da filosofia idealista porque a ciência natural oferecia uma espécie de controle que seus rivais não podiam oferecer. Esse movimento via a religião como uma tentativa frustrada de obter controle, via o idealismo alemão como uma tentativa escapista, ilusória, de negar a necessidade de controle. A capacidade de a ciência natural predizer os fenômenos e fornecer a tecnologia para produzir fenômenos desejados mostrou que só essa área da cultura oferecia verdadeira compreensão, porque só ela oferecia controle efetivo.

O ponto forte dessa linha de pensamento cientificista é que, embora a compreensão seja sempre de objetos sob uma descrição, os poderes causais que os objetos têm de nos ferir ou nos ajudar não são afetados pelo modo como são descritos. Ficamos doentes e morremos, não importa como descrevemos a doença e a morte. Os cientistas cristãos, infelizmente, estão errados. O ponto fraco do cientificismo é inferir, do fato de que um certo vocabulário descritivo nos permite predizer e utilizar os poderes causais dos objetos, a afirmação de que esse vocabulário oferece uma melhor compreensão desses objetos que qualquer outro. Esse "non sequitur" ainda hoje é explorado pelos kripkianos. Que isso seja visto ou não como um "non sequitur" depende da predisposição de a pessoa redescrever a compreensão do modo como Gadamer sugeriu. 

Linguagem do presente

Para seguir a redescrição de Gadamer, teríamos de abandonar a idéia de um termo natural ao processo de compreender -seja a matéria, seja a missa, seja a "Ilíada", seja todo o resto-, um nível em que cavamos tão fundo que nossa pá entorta. Pois não há limite à imaginação humana -à nossa capacidade de redescrever um objeto e, portanto, recontextualizá-lo. Um vocabulário descritivo é um modo de relacionar um objeto a outros objetos, de pô-lo num novo contexto. Não há limite ao número de relações que a linguagem pode apreender, nem de contextos que os vocabulários descritivos podem criar. Enquanto o metafísico perguntará se as relações expressas num vocabulário realmente existem, o gadameriano perguntará apenas se elas podem ser entrelaçadas a relações apreendidas por vocabulários anteriores de forma útil. Mas, tão logo se usa um termo como "útil", aqueles que acreditam em essências reais e na verdade como correspondência perguntarão: "Útil segundo que critério?". Pensar que tal busca por critérios está sempre em jogo é imaginar que a linguagem do futuro devia ser uma ferramenta nas mãos da linguagem do presente. É tornar-se um aficionado por controle, alguém que pensa poder abreviar a história encontrando algo que se ache por trás dela. É acreditar que podemos agora, no presente, construir um sistema de arquivamento que terá um escaninho apropriado para tudo quanto possa surgir no futuro. Aqueles que ainda esperam um tal sistema de arquivamento selecionarão alguma área específica da cultura -filosofia, ciência, religião, arte- e lhe atribuirão "o primeiro posto no reino da mente pensante". Mas aqueles que seguem Gadamer -e também os que seguem Habermas- deixarão de lado esse projeto hierárquico. Eles o substituirão pela idéia de uma conversação livre de injunções ("herrschaftsfrei"), que nunca poderá chegar ao termo e na qual as barreiras entre as disciplinas acadêmicas são tão permeáveis quanto aquelas entre épocas históricas. Tais pessoas esperam uma cultura em que as lutas por poder entre bispos e biólogos -ou poetas e filósofos, ou "tecnos" e "obscuros"- sejam tratadas simplesmente como lutas pelo poder. Rivalidades como essas sem dúvida sempre existirão, simplesmente porque Hegel estava certo ao dizer que apenas um "agon" dialético produzirá a novidade. Mas, numa cultura que tome a peito o lema de Gadamer, tais rivalidades não seriam pensadas como controvérsias sobre quem está em contato com a realidade e quem ainda está atrás do véu de aparências. Elas seriam lutas para captar a imaginação, para fazer com que outras pessoas usem seu vocabulário. Uma cultura desse tipo parecerá aos metafísicos materialistas uma cultura em que os "obscuros" levaram a melhor, uma cultura em que a poesia e a imaginação por fim triunfaram sobre a filosofia e a razão. Esse pequeno sermão sobre um texto gadameriano que eu venho lhes dando provavelmente parecerá a eles outro exercício de relações públicas em prol das ciências do espírito. Concluo dizendo por que penso não ser essa a maneira correta de ver a questão. Em primeiro lugar, uma cultura gadameriana não teria uso para faculdades chamadas "razão" ou "imaginação", faculdades concebidas como tendo alguma relação especial com a realidade. Quando falo de "captar a imaginação", refiro-me a nada mais que "ser apanhado e usado". Em segundo lugar, uma cultura gadameriana reconheceria que o sistema de arquivamento de qualquer pessoa há de ter um escaninho em que enfiar o sistema de todas as outras. Toda área da cultura teria sua própria descrição das demais áreas da cultura, mas ninguém perguntará qual dessas descrições entende corretamente aquela área. O importante é que ela será "herrschaftsfrei"; não haverá um sistema de arquivamento superior, a que todos devam submeter-se. Meu sermão sobre o texto "O ser que pode ser compreendido é linguagem" obviamente não foi dado como um relato da essência real do pensamento de Gadamer. Antes, é dado como uma sugestão sobre como alguns horizontes a mais podem ser fundidos. Tentei sugerir como a própria descrição de Gadamer sobre a evolução do pensamento filosófico recente pode ser integrada com algumas descrições alternativas que agora estão em voga entre os filósofos analíticos. Eu creio e espero, porém, que uma vez terminado mais outro século, a distinção que acabei de empregar -a distinção entre filosofia analítica e não-analítica- parecerá insignificante para os historiadores da filosofia. Filósofos no ano 2100, creio eu, lerão Gadamer e Putnam, Kuhn e Heidegger, Davidson e Derrida, Habermas e Vattimo lado a lado. Se o fizerem, será porque terão enfim abandonado o modelo cientificista voltado à solução de problemas da atividade filosófica com que Kant onerou nossa disciplina. Eles o terão substituído por um modelo de conversação, um modelo em que o sucesso filosófico é medido por horizontes fundidos, e não por problemas solucionados ou mesmo problemas dissecados. Nessa utopia filosófica, o historiador da filosofia não escolherá seu vocabulário descritivo com um olho na distinção entre os problemas reais e permanentes da filosofia e os problemas aparentes e transitórios. Antes, ele escolherá um vocabulário que o capacitará a descrever o máximo possível de figuras passadas como interlocutores numa única conversação coerente. 

Plenitude da conversa

Gadamer uma vez descreveu o processo de fusão de horizontes como o que acontece quando "o horizonte próprio do intérprete é determinante, mas não como um ponto de vista ao qual a pessoa se apega ou pelo qual se impõe, senão como uma opinião e uma possibilidade posta em jogo e que lhe ajuda a apropriar-se daquilo que vem dito no texto" ("Wahrheit und Methode", 4ª ed., pág. 366). Em seguida, ele descreve esse processo como "a plenitude da conversa ("Gespräch'), na qual ganha expressão uma coisa ("Sache') que não é só de interesse meu ou do meu autor, mas de interesse geral".

Substituir a distinção aparência-realidade com a distinção entre um leque limitado e outro mais extenso de descrições seria abandonar a idéia da "Sache" como algo separado de nós pelo abismo que separa a linguagem da não-linguagem. Seria substituí-la por uma concepção gadameriana da "Sache" como algo eternamente aberto à discussão, a ser eternamente reinventado e redescrito no curso da "Gespräch". Tal substituição seria o fim da busca pelo poder que Heidegger definiu como a "tradição ontoteológica".

Essa tradição foi dominada pela idéia de que existe algo não-humano a que os seres humanos devem tentar se igualar, uma idéia que hoje encontra sua expressão mais plausível na concepção cientificista da cultura. Numa cultura gadameriana do futuro, os seres humanos desejariam apenas se igualar uns aos outros, no sentido de que Galileu se igualou a Aristóteles, Blake a Milton, Dalton a Lucrécio e Nietzsche a Sócrates. A relação entre antecessor e sucessor seria concebida, como sublinhou Gianni Vattimo, não como uma relação de "Überwindung", uma superação repassada de poder, mas de "Verwindung", uma superação em termos mais brandos. Numa tal cultura, Gadamer seria visto como uma das figuras que ajudou a dar um sentido novo, mais literal, ao verso de Hölderlin: "Seit wir ein Gespräch sind..." ("Desde que somos uma conversa...").

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* RORTY, Richard. A utopia de Gadamer. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 fev. 2000. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1302200006.htm>. Acesso em: 02 fev. 2015. 

Resenha - Pecados da democracia americana*


Renato Janine Ribeiro

Em seu livro "Para Realizar a América", Richard Rorty propõe que a esquerda norte-americana, dividida desde o esgotamento do New Deal rooseveltiano, na década de 1960, volte a unir-se em torno de ações conjuntas. Sua crítica mais interessante dirige-se aos herdeiros da nova esquerda, que surgiu da revolta contra a Guerra do Vietnã, guerra essa que fora iniciada, precisamente, pelos membros do Partido Democrata mais ligados aos ideais de justiça social dentro dos EUA. Esse "racha" entre os liberais (no sentido norte-americano, a não confundir com neoliberais) e a nova esquerda foi fatal. O presidente Lyndon Johnson, enquanto submetia o Vietnã a um dilúvio de bombas, quebrava as bases da discriminação racial no sul dos Estados Unidos. Uma política doméstica progressista convivia com uma externa, agressiva. 

"New Deal" político

A nova esquerda, criticando o imperialismo, não teve eco nos sindicatos. Não podendo agir politicamente, refugiou-se, diz Rorty com certo exagero, nas universidades e numa crítica filosófica hermética -os "estudos sociais". De política, a esquerda teria se reduzido a cultural. Richard Rorty quer retomar a aliança reformista que gerou o "New Deal", entre trabalhadores e intelectuais. Reconhece o mérito da nova esquerda, que denunciou "o sadismo", diz ele, presente em tantas relações étnicas e de gênero que antes passavam incólumes pela crítica economicista. Mas pede que ela aja mais e teorize menos. Esse, um eixo do livro: a teoria que separa a esquerda cultural da reformista seria hoje um mantra, um ritual de pouco uso prático. Daí que Rorty queira uma "moratória da teoria", permitindo reunir os progressistas numa prática reformista. Outro eixo da obra está numa reavaliação do orgulho nacional, hoje monopolizado pela direita. Ora, Walt Whitman e John Dewey, intelectuais progressistas, sentiam orgulho dos Estados Unidos, que eles identificavam à democracia. Por que perder essa ligação? Se o país cometeu erros e até crimes, a democracia é capaz de autocorreção. Descrer dessa capacidade é pensar o país pelo pecado, e não pelo potencial -pelo passado, e não pelo futuro. 

Obsessão pelo pecado

A esquerda deve lembrar que a obsessão pelo pecado é um traço distintivo da direita. Essa nota de Rorty é a mais preciosa do livro. Desenvolvo-a. É de direita a obsessão pela impureza: daí o risco de ela deslizar para a xenofobia e mesmo a chacina social. Já a esquerda, leiga e contrária à exclusão, não pode pensar assim. Mas o problema (sempre segundo Rorty) é que a "esquerda cultural" tem lido os Estados Unidos nessa linha, caçando os vestígios de seus pecados originais. Em vez de apostar no poder construtor da democracia, investe contra legados indeléveis de ações passadas. Mas com isso se impede de agir, porque só pode haver ação quando se perde a mania da pureza. Esses são pontos positivos do livro. Contudo, ele tem problemas. Vou discuti-los segundo o plano da obra, que é uma discussão sobre os Estados Unidos. Estudiosos de Rorty, como Paulo Ghiraldelli Jr., autor de uma útil introdução ao livro, vinculam-no à sua reflexão neopragmatista. Mas penso que o autor concordaria que a prova do pudim está no comê-lo. Ficar na teoria seria repetir o que Rorty critica, isto é, entoar um mantra autojustificativo. O principal problema está já na capa. O subtítulo em português traduz o inglês "America" pelo português "América". Terá sido exigência de Rorty e de sua editora norte-americana manter América, e não Estados Unidos? Ora, o termo em inglês designa um país, que cobre menos de um quarto do continente aludido pela palavra em português. Isso porque, nos Estados Unidos, é corrente a metonímia pela qual a parte (seu país) se identifica ao todo (o continente). 

A parte pelo todo

Não exagero dizendo que o problema do livro, ao menos para um leitor estrangeiro, está em não contestar essa metonímia, constitutiva do discurso norte-americano sobre si próprio. Tal confusão entre a parte e o todo, ou entre o particular e o geral, ilustra bem a dificuldade que teve a democracia norte-americana em lidar com o resto do mundo, e que resumo dizendo que ela foi um dos produtos que aquele país menos teve sucesso em exportar.

Duas revoluções quase coincidem em data, a americana e a francesa. A primeira funda uma república que dura, sem interrupção, há mais de dois séculos. A outra inicia uma série de revoluções (quatro), de repúblicas (cinco), de monarquias (quatro). Internamente, parece que a norte-americana teve maior êxito. Mas a revolução que se difundiu pelo mundo foi a francesa. Nela se inspiraram mais revolucionários, sobretudo os empenhados na justiça social.

Já a fecundidade mundial da Revolução Americana é pequena. Ironicamente, a única nação que, em sua declaração de independência (de 1945), citou a dos Estados Unidos foi bombardeada pela aviação desse país por mais de dez anos: o Vietnã. É forte esse simbolismo. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos se aliaram, no Terceiro Mundo, com os setores mais comprometidos com a injustiça social. A questão é: a democracia, como poder de laicização crescente das relações sociais, que ela emancipa das transcendências religiosas, será capaz de liquidar seus débitos pendentes, internos e externos? Terá ela um potencial imanente de vencer suas falhas? Há bons argumentos nessa direção, que penso ser a de Rorty. Primeiro, para os direitos do cidadão até hoje não houve regime melhor que ela. Segundo, é o regime do autogoverno: seus erros, sendo humanos, podem corrigir-se. Terceiro, onde ela vigora, a cidadania só cresceu. Quarto, até hoje democracias não entraram em guerra entre si. 

Expansão democrática

Contudo, nos anos 60, a nova esquerda, que Rorty critica, discordou dessa avaliação positiva que faço. Ela notou que havia uma muralha social na democracia: essa assentava numa mentira, excluindo mulheres, negros, homossexuais, estrangeiros. Vencer a exclusão exigiria bombardear de fora o regime democrático, que por sua vez bombardeava, no exterior, milhões de asiáticos, e, no interior, a oposição. O Vietnã e o Watergate foram o ponto de virada dessa democracia fechada. Depois, houve uma expansão democrática, ampliando os direitos humanos nos Estados Unidos e alastrando a democracia pelo mundo. Prevaleceu a democracia, como potencial leigo de superação interna de suas próprias falhas. Mas essa leitura, que suponho ser a de Rorty, vale ainda? Se o balanço político e institucional dos anos 90 é positivo, o balanço social não o é. A interferência norte-americana, que favorece a agenda política, não procura reduzir, longe disso, a desigualdade social. O que traz de volta a questão da metonímia Estados Unidos/América, ou Estados Unidos/ mundo, que por sua vez decorre da metáfora Estados Unidos/democracia, esta segunda, explícita em Rorty, enquanto a primeira é implícita no título da tradução. Talvez, para concluir, devamos distinguir duas questões. O eixo de toda política progressista deve ser a aposta no potencial de expansão da democracia, justamente por ser ela um regime leigo. Tem dado certo a convicção de que só se expande a democracia por sua ampliação, não por sua destituição, o que, aliás, foi uma lição importante para a esquerda dos anos 60, que acreditava no contrário e por isso fez a equivocada opção por uma luta armada em que foi vencida. 

Orgulho e agressão

Se houver uma forma de governo capaz de liquidar os débitos sociais e humanos, essa é a democracia. Mas isso não implica que deva ser a democracia norte-americana. É ótimo Rorty recuperar a identificação dos Estados Unidos com a democracia, mas é duvidoso restaurar a identidade da democracia com sua forma norte-americana. Porque talvez aí esteja o problema: suponho que tal identidade tenha concorrido para fechar os Estados Unidos em sua singularidade política e até imperial. O orgulho nacional deixou a democracia intramuros conviver com a agressão externa. Enfim, qualquer projeto de democracia exige o balanço dos modelos existentes e a invenção de novos, mais solidários, mais fecundos. A viagem só começa.

Para Realizar a América - O Pensamento de Esquerda no Século 20 na América 160 págs., R$ 16,00 de Richard Rorty. Trad. de Paulo Ghiraldelli Jr. DP&A (tel. 0/xx/21/ 507-2633).

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* RIBEIRO, Renato Janine. Pecados da democracia americana. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 fev. 2000. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2702200009.htm>. Acesso em: 02 fev. 2015.

** Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da USP.