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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Resenha - Pragmatismo samaritano*


Paulo Ghiraldelli Jr.**

Os anos 60 e os 70 do século 20 foram a época de apogeu do "fim da religião" entre os jovens. A década de 90 viu a religião voltar para a vida da juventude. Filósofos como o religioso Gianni Vattimo e o anticlerical Richard Rorty, que tiveram diálogos reunidos pelo teólogo Santiago Zabala no "The Future of Religion", estão atentos ao aumento do número de fiéis. Eles se preocupam com a saída da religião da esfera privada e seu possível retorno para a esfera pública.

Para ambos, o problema que vivemos não é o das pessoas adotarem ou não religiões, mas sim o das pessoas levarem o dogmatismo quase que inerente à religião para fora do campo íntimo. Isso seria um complicador da vida democrática. No entanto ambos enxergam o mundo ocidental como um mundo melhor após a adoção do cristianismo como guia para comportamentos morais -uma disposição para a justiça calcada no amor ao próximo em vez de regrada pela idéia de "dente por dente e olho por olho".

Mas como manter a idéia de que a moral cristã - uma moral religiosa, afinal - colabora com a nossa prosperidade e, ao mesmo tempo, lhe negar qualquer legitimidade se, para tal, for necessário dizer que ela é expressão da verdade?

Rorty e Vattimo podem ser tomados dizendo: a religião só perde e só nos faz mal saindo do campo da intimidade. Ela não ganha nada, e nós bem menos, se quiser se tornar um conhecimento objetivo, algo com a pretensão de espelhar "a realidade como ela é". Todavia a religião como vivência, em especial o cristianismo, pode colocar a idéia e a prática da "lei do amor" como válida por meio das histórias morais que pode contar. O Novo Testamento traz um bom número dessas histórias. Elas não se tornam menos importantes se tomadas como ficção. Nem se tornam mais convincentes se validadas como verídicas por historiadores.

Penso que o que Rorty e Vattimo poderiam endossar é o uso pragmático do Novo Testamento. Por exemplo, se quero falar para os jovens da tolerância e da solidariedade entre etnias, o melhor não seria recolocar a conversa de Jesus sobre o samaritano? Os samaritanos eram pessoas consideradas como péssimos exemplos a serem seguidos, segundo a crença da época. Quando Jesus foi questionado sobre como levar a vida segundo seus ensinamentos, ele, com sua ironia peculiar, apontou para o comportamento do samaritano que ajudou um desconhecido, após este ter sido assaltado.


Veracidade irrelevante


A idéia de Jesus é clara: mostrar que o pertencimento a um ou outro povo é secundário, ser de uma ou outra raça é irrelevante, o prioritário é agir de modo desprendido por amor, por solidariedade, corajosamente. Essa história de Jesus era verdadeira? Tanto faz! E a própria história de Jesus ter contado tal história é verdadeira? Tanto faz! A moral nela contida e seu ensinamento são válidos para nossa conduta independentemente disso. Aliás, muitos que se dizem cristãos nem mais se importam em saber se na hóstia consagrada há alguma divindade ou não. A prática do samaritano é o que vale.

A mesma idéia pode servir em uma centena de outros exemplos do Novo Testamento. No caso do perdão à prostituta, na situação de não lavar as mãos à mesa, na dúvida de Jesus sobre Deus quando na Cruz etc. Todas as facetas humanas de Jesus são as que importam para colocarmos na jogada novos vocabulários de deliberação moral capazes de nos levar a um outro mundo: nessas conversas, a palavra "justiça" se desassocia das palavras "vingança" e "reparação" para se tornar amiga das palavras "perdão", "solidariedade" e "amor". Essa nova associação entre palavras muda falas e atos e assim faz sem ter de responder se há verdade ou não nos discursos em que aparecem.

Essa religião de um "Jesus pragmatista" é o que entendo que vem no mesmo sentido da "abertura" da filosofia em relação à religião que, em nossos tempos, é uma abertura da filosofia em relação a uma boa parte da juventude. Os diálogos do anticlerical Rorty e do religioso Vattimo estão nesse caminho. Este é um bom livro, que valeria a pena ser traduzido.


The Future of Religion
112 págs., US$ 24 - R$ 57 de Gianni Vattimo, Richard Rorty e Santiago Zabala. Columbia University Press (EUA)
Onde encomendar
Livros em inglês podem ser encomendados, em SP, na Fnac (tel. 0/ xx/11/4501-3000) ou no site www.amazon.com

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* GHIRALDELLI JR., Paulo. Pragmatismo samaritano. Folhã de S. Paulo, São Paulo, 03 jul. 2005. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0307200513.htm>. Acesso em: 02 fev. 2015.

** Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). Dentre outros livros, publicou "Richard Rorty - a filosofia do novo mundo em busca de mundos novos" (1999) e "Ensaios pragmatistas - sobre subjetividade e verdade" (2006), este último em conjunto com Rorty.

Um brinde fora do lugar*


Jurandir Freire Costa**

Por intermédio de Flávio Pinheiro, tive acesso ao texto de Richard Rorty sobre "A Rebelião das Elites", de Christopher Lasch. Um resumo do livro apareceu na Folha há pouco tempo. Rorty critica Lasch e propõe dois brindes às elites, a título de provocação intelectual.

A crítica apóia-se em dois principais argumentos. Primeiro, Lasch seria um passadista empedernido e uma analista político de um olho só. Atacar cegamente as elites é sinal de obtusidade. Num mundo economicamente globalizado, pensar numa sociedade sem especialistas ou numa gerência de negócios comunitária e democratizada é derrisório.

Lasch, afirma Rorty, agride o desenvolvimento político e tecnológico norte-americanos, como se nada de bom tivesse surgido do avanço das ciências e da luta pelo progresso social. Seu mundo ideal é uma fantasia fabricada pelo marxismo amaciado, tão ao gosto dos radicais dos anos 60.

Sem as diabólicas elites de Lasch, pergunta Rorty, em que pé estariam, por exemplo, as lutas pelos direitos civis das minorias, a campanha contra a guerra do Vietnã etc? Lasch, ironiza Rorty, "é melhor lamentando perdas do que fazendo o balanço de perdas e ganhos; e imaginando desastres do que propondo saídas". Na hora das soluções, o analista radical fica em silêncio. É fácil ser romanticamente revolucionário, quando não se tem o ônus de responsabilidades concretas.

Segundo, Lasch aspiraria por uma ordem político-econômica feita do improvável e não do possível. Em vez de experimentar, limita-se a desconstruir, deixando no lugar, à maneira de Heidegger, "desespero, e não consolo". Dividir o mundo entre massas e elites, condenando ambas em nome de uma utopia proletária nunca vista, em nada resolve os problemas que enfrentamos.

Melhor seria seguir os conselhos de Harold Bloom e Gore Vidal, que se contentam com "um razoável governo democrático" e com a chance de realizar nossos anseios privados na terra e não no paraíso pós-revolução.

Rorty é um dos maiores pensadores da atualidade. Seu compromisso com os ideais humanitários das democracias liberais é, a meu ver, inequívoco. Mas "nobody is perfect", dizia Billy Wilder. A miopia diagnosticada em Lasch às vezes o atinge sem que ele se dê conta.

Ao contrário do ditado, guarda o bebê e a água suja, e ninguém de bom senso gostaria de ressuscitar o "american way of life" antes do Vietnã. Neste aspecto, Rorty tem razão. Mas até aí só temos meia história. O fundamental do trabalho é a constatação de que as novas elites são indiferentes ao bem comum. Rorty insiste em desconhecer isto. Quando se trata de analisar a economia capitalista, passa rápido ou faz vista grossa.

É ou não escandaloso notar que 20% dos norte-americanos, hoje, concentram 50% da riqueza do país mais rico do mundo? Isto reflete os ideais de Jefferson, Bloom ou outros autores tão citados por Rorty? Do mesmo modo, quando defende a sociedade de especialistas, o que tem Rorty a dizer sobre os parasitas especuladores do mundo inteiro, que vêm acumulando fortunas gigantescas às custas da miséria de milhões de pessoas e centenas de países pobres no planeta? Isto é experimento eticamente pragmático ou canalhice, violência e crime lesa-democracia, quando não lesa-humanidade!

Tem mais. Como bem sintetizou David Hall, em sua narrativa pragmática, Rorty elege o "ironista liberal", o "poeta forte" e o "revolucionário utópico" como ideais de conduta ética do sujeito face às contingências do mundo. Rortyanamente, pergunto, o que têm a ver estes heróis com os comportamentos e os jargões politicamente corretos dos movimentos de minorias que ele costuma dar como exemplo da responsabilidade social das elites?

Basta assistir "Oleanna", de David Mamet, ou ler a reportagem de Eliana e Contardo Calligaris, publicada recentemente neste Mais!, para ver a distância que separa aquelas condutas morais robotizadas dos ideais wittgensteinianos e nietzscheanos que alimentaram o pensamento de Rorty. Em que tais estereótipos humanos distinguem-se dos rebanhos de "idiotas dominantes", para usar a expressão desabusada de Feyerabend? Como ver progresso moral em indivíduos que repetem bovinamente que "são aquilo que seu grupo é" e que só abrem a boca para exprimir "as necessidades, anseios e aspirações do grupo"?

O que de poético ou heróico existe no empacotamento de indivíduos em rótulos de "feministas", "velhos", "negros", "homossexuais", "sadomasoquistas" etc? Onde encontrar, nesta obsessão pelas pequenas diferenças narcísicas, o mundo de todos e para todos, imaginado pelos pais do "poema americano", que Rorty tanto admira? Neste sentido, Lasch vai além. Não se sente responsável pelo conserto das mazelas do que não criou e que sempre condenou.

É difícil ir de encontro a quem admiramos e devemos muito de nossas crenças morais e intelectuais. Mas esta é uma das consequências do pragmatismo. Nenhum vocabulário é imortal. Tudo pode ser reescrito à luz dos princípios éticos que aceitamos. Isto aprendi com o grande pensador Richard Rorty. Seu brinde, lamento, veio fora de tempo e lugar. Foi feito antes da catástrofe da tequila.

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* COSTA, Jurandir Freire. Um brinde fora do lugar. Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 mar. 1995. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/3/12/mais!/25.html>. Acesso em: 02 fev. 2015.

** Jurandir Freire Costa é psicanalista e escritor. Autor de diversos livros, entre eles "Redescrições da Psicanálise" (1994) e "O Risco de cada um e outros ensaios de psicanálise e cultura" (2007).

Rorty e a psicanálise*


Jurandir Freire Costa**

Richard Rorty é um dos mais notáveis pensadores da atualidade. A leitura neopragmática que faz da filosofia da linguagem, da filosofia da mente, da teoria do conhecimento, da filosofia moral etc, é ousada, nova e admiravelmente inventiva. Por isso, abre um horizonte intelectual que vai muito além das disciplinas investigadas.

Exemplo típico é o caso da psicanálise. Rorty nunca tomou explicitamente a psicanálise como objeto de estudo. Entretanto, alguns de seus trabalhos (por exemplo, "Contingence, Irony and Solidarity", "Freud and Moral Reflexion", "Non-reductive Physicalism" etc.) renovam, de modo inédito e surpreendente, noções psicanalíticas como a do sujeito na relação com a linguagem e a verdade.

Para Rorty, o que denominamos sujeito não é um dado pré-existente aos elementos linguísticos constitutivos de sua descrição. O "sujeito", o "eu" ou o "self" são um efeito de linguagem. Mas linguagem, aqui, não equivale à competência abstrata para produzir falas particulares, como em Chomsky, ou à estrutura formal de todas as falas possíveis, como em Saussure.

Na tradição pragmática de Wittgenstein, Austin, Quine e Davidson, linguagem é simplesmente o conjunto de atos de fala empregados pelos usuários competentes de uma língua. O que distingue o sujeito enquanto rede linguística de outros efeitos de linguagem, sem referência a estados ou processos subjetivos, é o fato de ser pensado como "a parte da rede de crenças e desejos postulada como causa interior do comportamento linguístico de um organismo singular". Em outros termos, o eu é a fração da linguagem entendida como aquilo que é causa ou que está na origem da linguagem.

As consequências desta afirmação são inúmeras. Em primeiro lugar, o sujeito é despojado de todo suporte "essencial", idealista ou realista. Nem corpo, nem conceito; nem sensível, nem inteligível; nem superficial, nem profundo, o sujeito é uma "realidade linguística" – realidade psíquica, disse Freud. E por ser linguística, depende de contextos historicamente contingentes.

Assim sendo, nenhuma identidade subjetiva – emocional, intelectual, sexual etc – é "natural" ou "universal". Nossas crenças sobre o que é normal ou anormal, natural e antinatural nas condutas humanas não designam uma "realidade extra-linguística" anterior ou heterogênea à linguagem; exibem opções e preferências morais da cultura a que pertencemos. Em segundo lugar, o sujeito descrito desta forma não possui centro ou núcleo verdadeiro, nem estrutural nem histórico.

Flexionando pragmaticamente a teoria semântica da verdade de Quine e Davidson, Rorty afirma que "verdadeiro é aquilo que é aprovado num sistema de crenças válido para a maioria dos fatos na maioria dos casos". Dito de outra maneira, verdadeira é a descrição do sujeito que satisfaça as exigências morais do certo e do errado, do bom e do mau, numa dada forma de vida.

No neopragmatismo, portanto, o fundamental, em Freud, não é a descoberta de explicações causais deterministas e supostamente científicas do que sentimos, pensamos e fazemos: é a construção da imagem do sujeito como um retecer permanente de crenças e desejos que cessa, provisoriamente, quando um dado estado de satisfação moral é obtido.

Na clínica como na vida podemos desejar alterar estados subjetivos por diversos motivos. Porém, quando alcançamos a alteração desejada, e ela é satisfatória, "nada mais é preciso, nada mais é possível", como disse Davidson.

O critério da satisfação moral é, deste modo, decisivo no julgamento que fazemos sobre a "normalidade" ou "anormalidade" das organizações psíquicas, bem como sobre o sucesso ou insucesso do processo psicanalítico. Qualquer outro critério pretensamente fundado em argumentos racionais independentes de práticas culturais específicas pressupõe, sem tornar claro, o acordo em torno de crenças éticas compartilhadas na linguagem ordinária. É o adeus prosaico, wittgensteiniano, dado por Rorty à metafísica da falta, do desejo ou do verdadeiro sujeito, contida em tantas versões da psicanálise.

A meu ver, sua interpretação neopragmática do sujeito restitui a força original do pensamento freudiano. Ou seja, primeiro a escuta solidária das existências individuais em conflito com os vocabulários morais dominantes; depois as metapsicologias.

Estas serão sempre bem vindas, desde que não pretendam aposentar precocemente vidas e desejos em "pequenas nosologias" e "pequenas teorias". Fazendo filosofia, Rorty fez o que de melhor pode ser feito em psicanálise: entender Freud. É um autor de gênio, comprometido com o humanamente digno. Pode haver maior elogio? 

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* COSTA, Jurandir Freire. Rorty e a psicanálise. Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 mai. 1994. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/5/08/mais!/9.html>. Acesso em: 02 fev. 2015.

** Jurandir Freire Costa é psicanalista e escritor. Autor de diversos livros, entre eles "Redescrições da Psicanálise" (1994) e "O Risco de cada um e outros ensaios de psicanálise e cultura" (2007).

O fedor de Heidegger*


Richard Rorty

No mundo Real Heidegger foi nazista, covardemente hipócrita e ainda assim o maior pensador europeu do nosso tempo.

As recentes tentativas de rejeitar Heidegger como "filósofo nazista" assemelham-se às tentativas nazitas de rejeitar a teoria da relatividade de Einstein como "física judaica". Em ambos os casos, pede-se que confrontemos um corpo de pensamento, nao a outros corpos de pensamento, mas a algo de mais facilmente acessível - nossas intuiçoes morais. Se você estiver de antemao convencido de que a própria noçao de relatividade é fruto da decadência cultural, terá fugido ao esforço de, primeiro, atravessar um sem-número de equaçoes, para só entao decidir se os fenômenos físicos podem ser explicados de modo nao-relativístico. Se você estiver certo de que as próprias idéias de "experiência autêntica" ou de "nostalgia pela voz do Ser" sao inerentemente fascistas, ter-se-á poupado o trabalho de comparar a versao heideggeriana da história da filosofia ocidental às versoes de Hegel, Dewey, Popper e Blumenberg, entre outros; isso para nao falar das etimologias fantasiosas e dos neologismos idiossincráticos do autor alemao. E, afora tudo isso, você estará livre para deixar de lado os livros daqueles que se deixaram influenciar por Heidegger - Derrida, De Man, Foucault -, incluindo-os sob a rubrica de tralha desacreditada.

O próprio Heidegger era mestre nesse tipo de rejeiçao apressada. Tal como Nietzsche, que dizia ter um olfato capaz de lhe dizer se um livro era digno de reflexao, Heidegger arrogava-se a capacidade de farejar o "autêntico" e o "primordial". Heidegger pôs de lado todos os esforços por alcançar mais felicidade humana ou por proporcionar oportunidades iguais para um maior número de pessoas como meros sintomas de "humanismo", outros tantos signos de nosso "esquecimento do Ser". De modo que, quando os Nazistas subiram ao poder, Heidegger não se sentiu obrigado a comparar suas propostas com as dos partidos católicos ou social-democratas, a se perguntar qual espécie de futuro a Alemanha poderia esperar do regime nazista, a matutar se não seria melhor continuar a viver dentro dos limites do Tratado de Versalhes, a perceber o dano que a demissão de professores judeus causaria às universidades alemas. Os nazistas cheiravam-lhe bem; havia algo de autêntico ao seu redor.

Graças ao livro de Hugo Ott, sabemos agora que a busca heideggeriana pela autenticidade andou mesclada a uma boa dose de ambição pessoal. Sabemos também que, quando foi chamado a prestar contas, ele mentiu descaradamente. Mas os juízos políticos equivocados, a ambição e a hipocrisia covarde - e mesmo, creio eu, a profunda antipatia pela democracia - não nos incomodariam tanto, não fosse pelo silêncio de Heidegger face ao destino dos judeus europeus. Muitos dentre nós estamos prontos a desconsiderar a vaidade, a altaneria e os negócios escusos de pensadores e escritores originais (aquele tipo de coisa que recheia livros como Intellectuals, de Paul Johnson) com o fito de perguntar: "Apesar de tudo, o que podemos aprender desses sujeitos? O que eles podem fazer por nós? O que podemos tirar deles?" Esta seria a atitude corrente em torno a Heidegger, não fosse por seu silêncio sobre o Holocausto, por sua recusa em sequer reconhecer sua existência. É como se de repente descobríssemos que certos poemas, originais e fantásticos, foram redigidos por um torturador em seus momentos de folga. Desse momento em diante, haveria um certo mau odor a rondar esses poemas.

Não obstante, creio que deveríamos tampar nossos narizes, separar a vida da obra e adotar face aos livros de Heidegger a mesma atitude que assumimos para com outros autores. Deveríamos confrontá-los, não às nossas intuições morais, mas a outros livros. Não é todo dia que se encontra uma história original da filosofia no Ocidente, tal como não é fácil dar com um livro original sobre os movimentos celestes ou a estrutura da matéria. Uma perspectiva original sobre a nossa tradição filosófica deve tentar explicar porque usamos as palavras tal como o fazemos e, por essa via, porque nos ocorrem as intuições morais que temos. Não podemos nos dar ao luxo de desprezar tentativas dessa natureza. Só deveríamos fazê-lo se tivéssemos por nossos narizes a mesma confiança egomaníaca que Nietzsche e Heidegger nutriam pelos seus. Talvez essa espécie de fé seja condição necessária para a produção de obras de gênio; mas nós, que não o somos e que nos consideramos tolerantes e abertos, faríamos melhor em nos livrarmos dessa fé.

Creio que será mais fácil separar a vida e a obra de um autor na medida em que concebamos o caráter moral - nosso ou alheio - como variável independente do curso dos nossos talentos. Vale aqui recordar uma lição freudiana: o caráter moral de um indivíduo (seu grau de sensibilidade ao sofrimento alheio) é moldado por eventos aleatórios ao longo de sua vida. Com freqüência, e talvez mesmo habitualmente, a sensibilidade varia independentemente dos projetos de auto-criação que o indivíduo leva a cabo em sua obra intelectual.

Tentarei esclarecer o que quero dizer por "eventos aleatórios" e "variação independente" por meio do esboço de um mundo possível ligeiramente diferente - um mundo em que Heidegger une-se a Thomas Mann, seu companheiro de anti-igualitarismo, na resistência anti-hitlerista. A fim de visualizar melhor como esse outro mundo possível poderia ter sido real, imagine que, no verão de 1930, Heidegger subitamente se apaixona perdidamente por uma aluna de filosofia, uma moça bonita, vibrante e adorável, de nome Sarah Mandelbaum. Sarah é judia, mas Heidegger, tonto de paixão, mal se apercebe. Em 1932, após um doloroso divórcio de Elfride, sua primeira esposa - processo que lhe custa a amizade do casal Husserl, entre outros -, Heidegger casa-se com Sarah. Em janeiro de 1933, nasce o primeiro filho, Abraham.

Em tom de brincadeira, Heidegger diz a Sarah que o filho não recebeu o nome em homenagem ao patriarca bíblico, mas sim em honra a Abraham à Santa Clara, o único outro filho de Messkirch a se dar bem na vida. Sarah vai à biblioteca examinar os escritos anti-semitas de Abraham à Santa Clara, e a piadinha de Heidegger torna-se pretexto para a primeira briga séria do casal. Pelo final de 1933, Heidegger já não faz piadas do mesmo teor: Sarah faz-lhe ver que os funcionários judeus - inclusive seu sogro - foram demitidos. Heidegger lê artigos a seu próprio respeito no jornal dos estudantes; percebe que seus dias estão contados. Pouco a pouco ele se dá conta de que seu amor por Sarah custou-lhe muito prestígio, e mais cedo ou mais tarde lhe custará o emprego.

Mas ele ainda a ama, e acaba por abandonar suas montanhas natais por causa dela. Em 1935, Heidegger está lecionando em Berna, mas tao-somente como professor visitante. Todas as cátedras de filosofia na Suíça estão ocupadas. É quando chega um convite do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton. Heidegger passa dois anos aperfeiçoando lenta e trabalhosamente seus conhecimentos de inglês, suspirando por uma sala de aula repleta de alunos atentos e devotados. A chance aparece em 1937, quando alguns de seus colegas emigrados conseguem-lhe um emprego permanente na Universidade de Chicago.

É lá que Heidegger conhece Elizabeth Mann Borgese, que por sua vez o apresenta a seu pai. Heidegger acaba por superar sua desconfiança inicial frente ao filho-do-papai hanseático, e Mann supera sua desconfiança inicial face ao filho de roceiro da Floresta Negra. Ambos percebem que compartilham - e ainda com Adorno e Horkheimer - uma visão dos Estados Unidos como reductio ad absurdum das esperanças iluministas, como terra sem cultura. Mas seu desprezo pelos EUA nao os impede de enxergar Hitler como ruína da Alemanha e, futuramente, da Europa.. Os empolgantes discursos radiofônicos anti-hitleristas de Heidegger permitem-lhe gratificar sua necessidade de oferecer uma auto-imagem heróica às massas humanas - a mesma necessidade que, noutras circunstâncias, ele poderia ter gratificado por meio de um discurso de posse como reitor.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o casamento de Heidegger está em destroços. Sarah Heidegger é uma social-democrata engajada, adora os EUA e é uma sionista apaixonada. Com o passar dos anos, veio a encarar seu marido como um grande homem, de coração frio e impermeável, um coração que, anos antes, abriu-se para ela mas que permanece fechado a seus anseios sociais. Despreza o egoísta na mesma medida em que admira o filósofo e o polemista anti-nazi. Separam-se em 1947, e ela segue para a Palestina junto com Abraham, que agora conta 14 anos. É ferida na guerra civil mas, após a independência, acaba por se tornar professora de filosofia na universidade de Tel-Aviv.

Heidegger retorna triunfalmente a Freiburg em 1948. Ele ajuda seu velho amigo Gadamer a conseguir um emprego, apesar de seu ácido desprezo pela aquiescência deste quando da investida nazista sobre as universidades alemãs. Casa-se pela terceira vez, agora com uma viúva de guerra, mulher que faz seus amigos lembrarem de Elfride. Quando morre em 1976, sua esposa deposita em seu caixão a Medalha Presidencial da Liberdade, a medalha da ordem Pour le Mérite, e a medalha dourada do Prêmio Nobel de Literatura. Este último fora-lhe concedido um ano depois da publicação da breve mas pungente elegia para Abraham, morto nas Colinas de Golan em 1967.

Que livros Heidegger terá escrito nesse outro mundo possível? Quase exatamente os mesmos que escreveu no mundo real. Conta a mesma história sobre a perda gradual da abertura primordial para o Ser ao longo do caminho que leva de Parmênides a Nietzsche. No outro mundo, entretanto, sua Introdução à Metafísica inclui uma identificação desdenhosa do movimento nacional-socialista ao niilismo inconseqüente da tecnologia moderna, assim como a observação de que Hitler está arrastando a Alemanha para o mesmo nível metafísico da Rússia e dos EUA. Seus seminários sobre Nietzsche são basicamente os mesmos, exceção feita a uma longa digressão sobre o horror de Nietzsche ao anti-semitismo, digressão que, aliás, representa um convergência surpreendente com um escrito contemporâneo e independente de Sartre, o Retrato do Anti-Semita.

Nesse outro mundo, Heidegger escreve quase todos os ensaios que conhecemos, além de interpretações de trechos de Thoreau e Jefferson, redigidos por ocasião de conferências em Harvard e na Universidade da Virgínia, respectivamente. Essas conferências transferem o pathos de suas pastorais ambientadas na Floresta Negra para o Monte Monadnock e a Serra Azul da Virgínia. Em suma: nesse mundo, seus livros são documentos do mesmo esforço que presenciamos no mundo real: o esforço por escapar à tradição filosófica ocidental e assim "cantar uma nova canção". Esse ímpeto pessoal rumo à pureza e à originalidade, essa tentativa de ver o Ocidente de uma perspectiva nova e radicalmente diversa constituiu o cerne de sua vida. Um ímpeto que não se deixou desviar pelo amor por uma outra pessoa ou pelo engajamento nos acontecimentos políticos do seu tempo.

Em nosso mundo, Heidegger não fez qualquer declaração política depois da guerra. No mundo possível que estou esboçando, ele investiu seu prestígio como anti-nazista na tarefa de tornar respeitável a direita alemã. É adorado por Franz Joseph Strauss, que lhe faz visitas respeitosas em Todtnauberg. Social-democratas como Habermas lamentam que Heidegger se encontre repetidamente no lado errado da política alemã; por vezes, em conversas privadas, dão vazão à suspeita de que, sob circunstâncias ligeiramente diferentes, Heidegger teria sido um nazista dos bons. Mas jamais sonhariam em afirmar publicamente uma coisa assim, ainda mais a respeito do maior pensador europeu do nosso tempo.

Em nosso mundo, Heidegger foi nazista, covardemente hipócrita, e ainda assim o maior pensador europeu do nosso tempo. Naquele outro mundo possível, ele tem a sorte de dar de cara com o tormento dos judeus europeus, o que acabou por despertar seus sentimentos de piedade e vergonha. Nesse mundo, ele teve a sorte de não ter podido tornar-se nazista, livrando-se assim de alguns convites à hipocrisia e à covardia. No mundo real, ele deu as costas aos fatos e acabou por recorrer à negação histérica, que por sua vez acarretou seu silêncio indesculpável. Mas a negação e o silêncio nao dizem muito sobre os livros que escreveu - e vice-versa. Em ambos os mundos, o único liame entre suas posições políticas e seus livros está em seu desprezo pela democracia, compartilhado aliás com gente como Eliot, Waugh e Paul Claudel - gente que (tal como previu Auden) acabamos por perdoar em vista dos grandes livros que escreveram. Poderíamos, do mesmo modo, ter perdoado a Heidegger seu desprezo pela democracia, se isso fosse tudo. Mas neste mundo sem Sarah, neste mundo em que Heidegger teve o azar de viver, havia muito mais em jogo.

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* RORTY, Richard. O fedor de Heidegger. Folha de S. Paulo, São Paulo, 20 abr. 1997. Tradução de Samuel Titan Jr. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/4/20/mais!/15.html>. Acesso em: 02 fev. 2015.

Resenha - A transformação da filosofia*


Paulo Eduardo Arantes**

Como o famigerado influxo externo - o mesmo de que falava Machado de Assis a propósito das idas e vindas de escolas literárias européias e demais panacéias científico-sociais prestigiosas - não só continua preponderante mas parece estar ingressando numa fase aguda de excitação nestes tempos de desmanche nacional acelerado, é muito provável que a tradução brasileira do principal livro de Richard Rorty, "A Filosofia e o Espelho da Natureza", mesmo atrasada de 15 anos, desencadeie um novo surto de conversões fulminantes, desta vez ao neopragmatismo americano. É que, ao lado de uma velha amiga da casa, a Ideologia Francesa da Transgressão e assemelhados, regularmente fustigada no seu flanco (direito? esquerdo?) pelo ameno cosmopolitismo ético da Teoria (alemã) da Ação Comunicativa, a Alta Conversação, prática social sucedânea da enferrujada investigação filosófica dos fundamentos, preconizada por Richard Rorty para coroar em grande estilo a era de Esclarecimento absoluto em que já vivem as prósperas democracias industrializadas do Atlântico Norte - como nosso Autor prefere se exprimir, não por cinismo, mas com certeza por considerar que é assim mesmo, sem rebuços essencialistas, que deve falar um nominalista consequente -, representa sem dúvida uma excelente ocasião para sacudir a poeira do atraso e do dogmatismo, como nos conclamam insistentemente a fazê-lo nas altas esferas da República, sobretudo nesta hora decisiva em que também o país intelectual procura seu lugar na nova divisão internacional do trabalho.

Não será demais lembrar de saída que estas três vias alternativas de ajuste filosófico às exigências da conjuntura mundial (por ser variante da primeira, deixei de mencionar uma quarta, a Desconstrução americana, de longe a mais forte no atual mercado ideológico) não são necessariamente incompatíveis, admitindo até uma ampla gama de combinações, como poderá verificar sem dificuldade qualquer observador do divertido "pas de trois" que elas costumam executar pelos quatro cantos do campus global. Neste gênero muito característico de coreografia, seja dito também de passagem, Rorty enxergou mais longe e saiu na frente: por exemplo, ao arbitrar com a desenvoltura dos vencedores um verdadeiro "tête-à-tête" de gigantes como a querela em que no início dos anos 80 se envolveram Habermas e Lyotard (mas poderia ser Foucault, é claro) a respeito do caráter inconcluso ou não do assim chamado Projeto Moderno, dando razão alternadamente ora a um, ora a outro. No que andou certo, uma vez que, para um pragmatista que se preze, diferenças teóricas são diferenças sobre coisa nenhuma, e quanto ao mais, ao que verdadeiramente importa, somos todos europeus que se deram bem neste fim de século, aliás por mera contingência, pois o devir é inocente, como de resto poderia demonstrar muito bem qualquer nietzschiano parisiense.

Sendo o ecletismo sabidamente nossa paixão metodológica predominante, está claro que esta oportuna liga de bastidores entre estilos rivais de adaptação ao novo curso do mundo joga a nosso favor. Estaríamos assim tão autorizados como qualquer um de nossos parceiros metropolitanos a costurar sem maior cerimônia, digamos, a rejeição do mito da sociedade transparente (como diria um ideólogo francês em guerra com o todo), na etérea ancoragem do poder político no tecido argumentativo da sociedade (na visão moral do mundo dos neo-iluministas alemães), sem esquecer de arrematar tal figurino brandindo o estandarte da intimidade (não há transformação da filosofia sem concomitante transformação da intimidade), devidamente articulada na pluralidade democrática de suas vozes (como poderia fazê-lo algum prolixo ideólogo americano do Self infinitamente maleável, de acordo aliás com qualquer manual de auto-ajuda).

Além do mais, mudando de manual, um bom livro-texto sobre tendências filosóficas contemporâneas se encarregaria, por sua vez, de assegurar que a feliz circunstância dessa convergência é muito natural, que ela se deve em última instância ao mesmo paradigma da linguagem compartilhado pelo pós-estruturalismo, pela nova teoria crítica e pelas várias correntes pós-analíticas, que o referido linguistic turn de última geração deixou bem longe para trás, no quarto de despejo das relíquias metafísicas, os conceitos enfáticos de razão substantiva e verdade-correspondência, sujeito autocentrado e conhecimento-como-representação ou busca-de-certeza etc., e que doravante o que cabe discutir (não se faz outra coisa nas últimas duas décadas) se resume à determinação do rumo específico a tomar a partir daquela momentosa virada (que um discípulo alemão de Habermas, não resistindo ao entusiasmo inspirado pelo novo panorama que se descortinava, chegou a considerar a mais significativa conquista teórica do século 20 filosófico), se na direção de uma pragmática (da linguagem), de uma política (da linguagem), de uma poética (da linguagem), e assim por diante. A transformação da filosofia patrocinada por Rorty tomou esta última direção.

Trata-se de um livro híbrido em mais de um aspecto. Acresce que redigido por um respeitável egresso do movimento analítico, porém sem a menor intenção de oferecer qualquer contribuição positiva acerca dos assuntos obrigatórios na corporação: nenhuma solução alternativa para o problema mente-corpo, idem para as inumeráveis teorias da referência ou do dualismo esquema-conteúdo etc. São questões terminais, e os falsos dilemas que suscitam, imagens sem futuro que se desmancham no ar. Não sendo em absoluto construtivo, além do mais parasitando as variantes teóricas que vai solapando, são evidentes suas simpatias desconstrucionistas. Mas a perspectiva é sobretudo terapêutica (à maneira do segundo Wittgenstein, é claro), embora fortemente realçada pelo tempero do historicismo europeu, cuja aclimatação todavia não teria sido possível sem a colaboração do momento pós-positivista da tradição analítica, inaugurado em princípio pelos primeiros ataques de Quine à tradição da "filosofia primeira", prolongados mais adiante por Davidson, Sellars, Kuhn etc.

Deu-se então um miraculoso recobrimento, manifesto por exemplo na ironia involuntária com que a gesticulação subversiva da desconstrução se resolve pacificamente num quadro de normalidade clínica. No centro desta reviravolta civilizacional, como era de se esperar, Wittgenstein II, só que agora também desempenhando o papel de desconstrutor mor de metáforas e arquétipos na origem de nossas mais arcaicas e arraigadas convicções filosóficas, como a da linguagem-espelho-da-realidade. Sendo pelo contrário a linguagem um mero instrumento, como sabe muito bem qualquer usuário sem fumaças especulativas, fica desobstruída a rota iluminista da desconstrução, que remontará primeiro à mítica essência vítrea de nossa mente. Desfeito o encantamento desta imagem primordial, desmorona o tabu moderno subsequente, incrustado na idéia igualmente regressiva de uma transação regulada a priori entre um sujeito cognoscente e a assim chamada realidade, marcha triunfal que culminará com a "morte da significação" (Ian Hacking), pá de cal definitiva no propósito hoje velho de um século de converter a linguagem num tópico transcendental. Assim, o Ocidente tremeu nas bases, um abalo que de tão profundamente irreversível quase passou desapercebido, deixando tudo na mesma, como atesta, entre outras mutações radicais, o pacato funcionamento enfim desenfeitiçado da linguagem ordinária.

Um terremoto deste porte deixou várias vítimas fatais. Para abreviar, vou logo à mais saliente: a noção moderna de filosofia enquanto tribunal da razão pura, última instância encarregada de fundamentar toda e qualquer pretensão de conhecimento ou certeza, e por aí autorizada, entre tantas outras atribuições de um verdadeiro e único guardião da racionalidade, a pedir contas às demais esferas da cultura na base do conhecimento prévio das suas respectivas fundações. Visto no entanto de um ângulo mais auspicioso, devemos reconhecer nesta convulsão o trauma de nascença de uma outra cultura, agora sim totalmente esclarecida, uma cultura pós-filosófica, finalmente aliviada do fardo filistino de fornecer razões, como se o conhecimento justificado fosse uma relação especial (de espelhamento) entre as palavras e as coisas.

Aqui então a virada linguístico-pragmática propriamente dita (que não deve ser confundida com o linguistic turn de primeira geração, dos tempos da semântica clássica do início do século), a revelação de que o assim chamado conhecimento é uma prática muito especial, no fundo uma questão de "conversação", sendo toda justificação uma "justificação conversacional", de sorte que compreendemos o conhecimento quando compreendemos a justificação social da convicção. Já dá para notar, entre tantas outras consequências do pragmatismo, que o mencionado abalo sísmico na cultura do Ocidente abriu uma fenda intransponível (sem maiores dramas, contudo, apenas outro indício da nova normalidade) entre verdade e justificação.

Cultura pós-filosófica então é isto: curado, graças a uma terapia adequada, o desejo infantil de contato objetivo, neutro e imediato, com a realidade tal como ela é, a maioridade intelectual do sujeito pós-filosófico, liberado da carga ansiosa cristalizada em formações reativas tais como ``a teoria verdadeira", "a coisa correta a fazer", se apresenta na alma leve de quem se sente muito à vontade por não precisar mais sustentar opiniões, por estar apenas dizendo alguma coisa sem o encargo arcaizante de dizer como realmente ela é. Assim pelo menos deveria se conduzir o cidadão esclarecido e cosmopolita das democracias afluentes do Atlântico Norte, a última encarnação do "honnête homme", alguém polidamente empenhado em não deixar uma conversa degenerar em... seminário, numa procura platônica qualquer da verdade. Um minuto de desatenção - por motivo de recaída nessa primitiva fixação profissional -, seria o suficiente para provocar um pequeno colapso mundano, demonstração cabal de falta de tacto da parte de quem pretende encerrar uma conversação ao invés de prolongá-la indefinidamente, como seria do dever de um verdadeiro homem do mundo. Compreendamos então o tamanho de nossa gafe, caso exigíssemos de um Wittgenstein, o grande herói da cultura pós-filosófica, que possuísse opiniões sobre o modo como as coisas são: uma exigência de inequívoco mau gosto, sobretudo por colocar o referido herói numa posição perigosamente ridícula.

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* ARANTES, Paulo Eduardo. A transformação da filosofia. Folha de S. Paulo, São Paulo, 01 mai. 1995. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/5/01/caderno_especial/5.html>. Acesso em: 02 fev. 2015.

** Paulo Eduardo Arantes e filósofo e professor aposentado da USP.

Resenha - Rorty e as esquerdas*


Ivan Domingues**

Acaba de sair no Brasil a tradução do livro de Rorty "Achieving Our Country" ("Para Realizar a América"), 11 anos depois de sua publicação nos EUA.

Originariamente um conjunto de três conferências, de leitura agradável, a obra contém uma "Apresentação", que cumpre o papel de introduzir o leitor no pensamento do autor, especialmente ao tratar da concepção pragmatista da verdade, à luz da obra de Rorty e de outros nomes ilustres. A lamentar apenas a falta de indicações mais precisas acerca do tema do livro, deixando o leitor desarmado frente ao que vem a ser a concepção pragmatista da política, e mais ainda diante da idéia de uma esquerda pragmatista, tão cara ao autor.

Os três capítulos que integram o livro recobrem assuntos diversos, envolvendo as análises do legado de Dewey e Whitman para o pensamento de esquerda, o exame da própria posição política de Rorty e ainda seus embates contra os comunistas e uma certa esquerda acadêmica. A idéia-força é que a esquerda americana, refugiada na academia, rompeu a aliança com os sindicatos e, desde então, começou a se afundar, não tendo hoje nenhum projeto para o país.

Depois de percorrer os três capítulos, o leitor brasileiro bem poderá se sentir desconcertado, ao descobrir que a esquerda nos EUA não é a mesma que ele encontra em outras paragens -no Brasil, na América Latina e na Europa. Se Roosevelt pode ser considerado de esquerda, com Johnson e Kennedy; se no vocabulário da esquerda de Rorty coabitam a esquerda reformista, a esquerda radical e a nova esquerda -então ou os vocábulos "esquerda" e "direita" não querem dizer mais nada, ou, no Brasil, Getúlio e Juscelino podem ser considerados homens de esquerda ...

Que o leitor não desconfie, porém, do discernimento ou da sinceridade de Rorty, ele que reconhecidamente é um terceiro-mundista e está sinceramente preocupado com o destino dos esquecidos em seu país e em outros cantos do planeta. Todavia que o leitor não espere desse livro a obra de um grande pensador preocupado em repensar a política e a esquerda, ao propor uma filosofia política pragmatista e de esquerda. Livro bem pensado é com certeza "A Filosofia e o Espelho da Natureza", que se ocupa de outro assunto e que, a meu ver, é a melhor coisa que Rorty escreveu. Já "Para Realizar a América" é um livro de circunstância, com menos vigor intelectual, mas ainda assim inteligente e com o qual temos algo a aprender.

Para bem avaliar o livro, eu proponho que analisemos antes o significado histórico dos vocábulos "esquerda" e "direita", para no fim indagarmos a respeito do possível uso desses vocábulos no contexto do pragmatismo.

Para Realizar a América - O Pensamento de Esquerda no Século 20 na América
Richard Rorty
Tradução e apresentação: Paulo Ghiraldelli Jr. DP&A
(Tel. 0/xx/21/507-2633)
160 págs., R$ 16,00

Sabe-se que os termos "esquerda" e "direita" foram forjados depois da Revolução Francesa para designar os lugares ocupados (fisicamente) pelos membros das diversas facções na Assembléia: no período da Convenção, o vocábulo esquerda referindo-se aos "Montagnards" (também chamados de Jacobinos), centro à "Plaine" (Planície) e direita aos Girondinos. Sabe-se que pouco depois, na própria França, houve um embaralhamento entre a esquerda e a direita, como bem viu Marx no "18 Brumário" ao aludir à revolução de 1848 e suas contradições: constitucionalistas que conspiram contra a Constituição, revolucionários que viram constitucionalistas, realistas que se aliam aos republicanos e assim por diante. Passados 150 anos, depois que a esquerda comunista abandonou a veleidade de monopolizar o ideário da esquerda, tal embaralhamento só se aprofundou, a ponto de os franceses dizerem hoje que, quando querem um governo de direita, votam na esquerda, fazendo o contrário quando querem um governo de esquerda.

Diante de tal embaralhamento (real) e ante a perplexidade das esquerdas (total), nada mais fácil para um pragmatista (que tudo mitiga) do que mitigar esquerda e direita e propor um centro mitigado, pensado como o verdadeiro "tópos" da política, mais além ou mais aquém da direita e da esquerda.

O mérito do livro de Rorty foi ter evitado esse caminho óbvio. Preferiu manter o divisor de águas entre a esquerda e a direita, ficando de um dos lados da linha divisória. Se ele mitiga alguma coisa, é a própria esquerda americana, ao juntar a esquerda reformista, a esquerda radical e a nova esquerda. Outro mérito, ao manter os pólos esquerda/ direita, é sua tentativa (ainda que sem levá-la às últimas consequências) de pensar os embates da política a partir do que se poderia chamar de agonismo político, tentativa que o leva em defesa da democracia, como sendo aquela forma de organização política que melhor se presta à expressão e operação dos conflitos permanentes das comunidades dos homens, incluído o conflito entre a esquerda e a direita.

Todavia, como não registrar o desconforto de ver o autor (em nome da democracia) partir em defesa da Guerra Fria, sem levar em conta os estragos terríveis que ela acarretou por toda a parte -no Vietnã, na América Latina e em outras paragens? Recentemente, depois do colapso da União Soviética, em artigo publicado no Mais!, pudemos ler de novo Rorty defendendo a democracia, ao apoiar a invasão de Kosovo pelas tropas americanas e seus aliados da Europa.

Espera-se que no Brasil, depois do fim do pensamento único, um dia alguém faça um trabalho parecido, ainda que entre nós a esquerda não seja a mesma.

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* DOMINGUES, Ivan. Rorty e as esquerdas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 jan. 2000. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs0801200007.htm>. Acesso em: 02 fev. 2015.

** Ivan Domingues é professor do Departamento de Filosofia da UFMG.

Entrevista - A filosofia sem salvação*



Bernardo Carvalho

O americano Richard Rorty, 63, é um dos maiores expoentes da chamada "filosofia neopragmática" ou "pós-analítica".

Algumas de suas principais teses foram expostas no polêmico "A Filosofia e o Espelho da Natureza" (1979), onde atacava a idéia da mente como um espelho refletindo o mundo e as pretensões do pensamento metafísico a dar legitimidade ao conhecimento.

Rorty não acredita numa correspondência direta entre o pensamento e o mundo –considera-se "antidualista, antiplatônico e antifundacionista" (é contra a idéia de que a filosofia paira acima da história e das práticas sociais e tem a função de fundar o conhecimento).

É absolutamente contra todas as teses essencialistas ou universalistas ("Não podemos procurar a salvação fora das práticas sociais", diz). Para ele, a filosofia (e por conseguinte a linguagem) deve ser, antes de mais nada, relativizada, colocada em contexto.

Professor da Universidade de Virginia (EUA), Rorty vem ao Brasil para uma conferência no dia 19, no Rio de Janeiro, dentro do projeto Banco Nacional de Idéias, cujo tema central é "O Relativismo Enquanto Visão de Mundo".

"Vou falar sobre as discussões entre os filósofos como eu, chamados de relativistas, e nossos críticos. Acho que relativismo é um termo errado para definir a minha filosofia, a de Derrida e a do pragmatismo americano de John Dewey, por exemplo. Não devemos nos descrever como relativistas, porque esse termo aceita premissas platônicas, que devemos rejeitar", diz o filósofo, que deverá debater com Luís Eduardo Soares e José Arthur Giannotti.

De seus livros mais significativos, apenas dois foram traduzidos para o português, em Portugal: "Filosofia e o Espelho da Natureza" e "Contingência, Ironia e Solidariedade".

Folha - Em "Filosofia e o Espelho da Natureza", o sr. vai contra a epistemologia e a metafísica. Que tipo de filosofia ainda é possível hoje?

Richard Rorty - A filosofia não deveria ser vista como uma disciplina científica, com uma função social a servir. Os filósofos são pessoas que tentam juntar novos desenvolvimentos culturais com regras familiares aceitáveis. Tentam reconciliar ética cristã com ciência newtoniana, por exemplo, ou iluminismo e racionalismo com uma perspectiva darwiniana da origem humana. Sua função é encontrar maneiras de reempacotar nossas crenças, de forma a que as novas crenças possam coexistir com as velhas.

Folha - No mesmo livro, o sr. diz que os filósofos que mais admira vêm de uma "tradição terapêutica". O sr. poderia explicar o que quer dizer com "uma filosofia terapêutica"?

Rorty - O termo terapia filosófica está associado, em inglês, a Wittgenstein, que era especialista em dizer que muitos dos problemas tradicionalmente discutidos em livros de filosofia simplesmente não precisam ser discutidos. São resultado de uma obsessão neurótica em relação a certos conceitos dispensáveis. Filosofia terapêutica é uma concepção de filosofia onde você tenta se livrar das muletas, da escolástica, das questões cujos temas provocam debates infindáveis e infrutíferos.

Folha - O sr. é um admirador de Heidegger. Qual seria o papel dele dentro dessa "filosofia terapêutica"?

Rorty - O trabalho inicial de Heidegger era uma polêmica contra Descartes e Kant, tentando colocar de lado a idéia que os dois faziam do que é o ser humano e os problemas filosóficos artificiais criados pelas imagens cartesianas e kantianas. Penso em Heidegger como um filósofo que fez, à sua maneira, o mesmo que Wittgenstein e Dewey fizeram.

Folha - Como o sr. explica a recente redescoberta e reavaliação de John Dewey (filósofo do pragmatismo americano, 1859-1952) pela filosofia?

Rorty - Acho que ele foi eclipsado por Marx. Os dois eram discípulos de Hegel e concordavam com o mestre contra Kant. Mas por um longo período, durante o tempo em que o comunismo pareceu ser uma opção possível, as pessoas pensaram que, se quisessem um ponto de vista antikantiano e anti-hegeliano, o lugar para achá-lo era em Marx. Hoje, com a queda do comunismo, Dewey parece melhor, surgindo como uma versão naturalizada e darwinizada de Hegel.

Folha - Há algum futuro para a filosofia num mundo onde verdade e objetividade foram completamente relativizados?

Rorty - Não há uma função para o tipo de filosofia que Descartes sugeriu que devíamos conduzir. Mas acho que sempre haverá a necessidade de intelectuais que tentem fazer a ponte entre o novo e o velho. Sempre haverá pessoas chamadas de filósofos na falta de um termo melhor.

Folha - Mas não haveria o risco de um vasto cinismo das idéias numa cultura em que conceitos como verdade e objetividade foram submetidos a um extensivo relativismo?

Rorty - É certamente uma possibilidade, mas o medo do cinismo também já estava presente nos séculos 17 e 18, quando os intelectuais estavam começando a secularizar a cultura. As pessoas pensavam que, sem as crenças religiosas tradicionais, o cinismo ia tomar conta. Estavam errados. Os intelectuais foram bem-sucedidos em secularizar a cultura sem produzir cinismo. Por analogia, espero que possamos nos livrar da metafísica e, ainda assim, evitar o cinismo.

Folha - O sr. trata de questões prioritárias também para filósofos de uma linha completamente diferente da sua, como os franceses Michel Foucault e Gilles Deleuze. Como o sr. vê a filosofia francesa pós-sartriana?

Rorty - Dos filósofos franceses que apareceram depois de Sartre, acho Derrida o mais importante. Ele tem o pensamento mais original e funciona muito bem dentro da tradição de língua inglesa da filosofia da linguagem contemporânea. Também admiro dois pensadores franceses mais recentes, Bruno Latour e Vincent Descombes, que escreveram contra a própria idéia de pós-moderno, contra os livros de Lyotard.

Folha - Por que o sr. é contra a idéia de pós-moderno?

Rorty - Acho que a noção de pós-moderno não tem qualquer utilidade. É mais uma tentativa artificial de sugerir que recentemente passamos por algo dramático e importante. Não acho que o século 20 faça essa passagem entre o moderno e o pós-moderno. Muito tempo e energia estão sendo gastos na reflexão sobre o tópico do pós-modernismo.

Folha - O sr. aceita o rótulo de filósofo pós-analítico que lhe é atribuído?

Rorty - Não tenho certeza. Creio que continuo sendo um filósofo analítico porque discuto muitos dos tópicos que foram discutidos por filósofos analíticos. Tenho a tendência a ficar nervoso com o termo pós, que me parece excessivamente usado.

Folha - O sr. chegou a dizer que não acreditava mais na possibilidade de uma filosofia analítica hoje...

Rorty - Acho que é um tipo de filosofia perfeitamente correta, não acho que seja impossível. Muito da filosofia analítica se tornou extremamente enfadonho, mas isso é uma outra questão. Há filósofos analíticos contemporâneos como Putnam e Davidson que, embora não sejam originais como Derrida, continuam fazendo importantes contribuições.

Folha - O sr. escreveu sobre o conceito de mente (mind) de uma forma original e inovadora dentro da perspectiva filosófica. O que o sr. pensa do trabalho recente de neurobiólogos como Gerald Edelman? Eles podem mudar alguma coisa nas ciências humanas e na filosofia?

Rorty - Não li muito de Edelman. O que li não me sugere que ele estabeleça qualquer relação com as questões que preocupam os filósofos. Não acredito que entenda bem o que os filósofos vêm discutindo.

Folha - O sr. também escreveu sobre a "filosofia da solidariedade". Poderia explicar qual o sentido do conceito "solidariedade" no seu trabalho?

Rorty - Não significa nada muito técnico. A idéia é que, se você abre mão de Deus, da idéia da verdade como uma representação exata e da natureza intrínseca da realidade, não sobra nada além das práticas sociais humanas em que você possa se ancorar. O termo solidariedade é apenas uma maneira de sugerir que nós, humanos, só podemos contar conosco e não podemos procurar a salvação fora das práticas sociais.

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* CARVALHO, Bernardo. A filosofia sem salvação. Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 mai. 1994. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/5/08/mais!/6.html>. Acesso em: 02 fev. 2015.